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Era tudo em código morse

Cloyverde Pinto Barra, ferroviário de Três Corações (MG)

O meu nome completo é Cloyverde Pinto Barra, eu nasci no dia 29 de julho de 1935. Eu nasci em uma estaçãozinha de roça, há poucos km de Lavras, chamada Rosas. Meu pai era ferroviário também, o nome dele é Odilar Pinto Barra. Ele era agente de estação, ele tinha várias atribuições, despachar uma mercadoria para diversos lugares, venda de bilhetes para o trem de passageiro.

Eu vim para Três Corações, comecei a trabalhar aqui foi no dia 1º de junho de 1954. Eu já entrei na rede já designado para vir para a sala de aparelho, que naquela época era o bicho papão da estrada de ferro, ninguém gostava de trabalhar na sala de aparelho.

Era tudo em código morse. Eu aprendi praticamente sozinho. Desde criança lá na estação via meu pai trabalhar fazendo o serviço, então eu fui aprendendo e quando ele recebeu um recado aqui de um dos chefes do escritório dizendo se tivesse mais algum filho para entrar para a rede, devia providenciar logo porque depois is ficar mais difícil, eu nem alistamento militar eu não tinha na época. Aí consegui o alistamento militar, fui lá em Belo Horizonte, fiz exame de saúde, voltei e logo em seguida me transferiram para a sala de aparelhos, os primeiros três dias foram duros, mas depois eu acostumei.

Lá na sala de aparelhos o serviço era unicamente era receber e transmitir os serviços que eram feitos em todas as estações, eram 92 estações. Todo o serviço todo do terceiro distrito passava por nossas mãos. Tinha o telégrafo e tinha uma estação de rádio que a gente comunicava com Belo Horizonte, unicamente para passar o serviço daqui para Belo Horizonte e receber de Belo Horizonte para cá. O telégrafo fazia um batido, o som era um som abafado, não era igual ao sinal de rádio, era diferente. Cada ponto e tracinho era uma letra. Era coisa que a gente não esquece nunca. O ponto era mais suave e o tracinho segurava um pouquinho, fazia isto rapidamente. Agora de pontinho e tracinho que eles iam batendo e passando a gente formava a palavra e ia escrevendo ali.

Naquela época o serviço era muito, não dava tempo. Eu cheguei para fazer o pernoite, chegava a meia noite e saia às oito horas, da meia noite até às sete horas, era um só. Eu cheguei para fazer o pernoiteaí tomei um golinho de café, e deixei o copo lá debaixo da torneira só pingando, dava um pinguinho, outro pinguinho, quando eu senti que melhorou um pouco, que desocupou um pouco que eu olhei, tava vazando água para fora do lavatório, nem percebi. Era uma mesa comprida com 3 telégrafos de um lado, 3 do outro e dois nas cabeceiras, e ficava rodando ali na noite toda, e assim era o serviço nosso lá, tem dia que era muito, tem dia que era menos um pouco, mas sempre bastante serviço.

Eu vejo tudo isto com muita tristeza porque a gente que tinha a ferrovia no sangu, a gente sente, agora não vejo a possibilidade de voltar ao que era não, acho que nem as linhas não existem mais, já roubaram os trilhos, eu acho que não tem condição de voltar.

Eu não tinha pretensões nenhuma, meu pai sempre gostou da ferrovia, minha família era tudo ferroviário, desde o meu avô. Ele mandou eu aprender o serviço, que eu iria entrar na rede. Eu segui o conselho dele e toquei a vida.

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