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No começo foi catando lenha

Meu nome é Ademar Magalhães Neves, nasci em 23 de novembro de 1923, estou com 88 anos! Eu nasci em Barra Mansa, mas vim pra cá com a idade de 7 anos. Eu cheguei criança e entrei logo no grupo escolar Bueno Brandão, ali eu fiz o até quarto ano só, não tinha recurso de estudar.

Entrei na rede catando lenha, no começo foi catando lenha, os fazendeiros cortavam a lenha e punham na estrada e vendiam para a ferrovia, e nós era uma turma de trabalhava no lastro. Saiam seis na máquina a vapor chegava no local, nas fazendas, e carregava a lenha na beira da linha. Hoje nem cortar uma árvore a gente não pode. Naquele tempo chegava a fazer estoque de 100 mil metros de lenha para as locomotivas a vapor. Depois de trabalhar dois anos neste lastro particular e que saí efetivo na rede e entrei direto no torno, não sabia nada, mas o chefe mandou, e de fato que peguei logo, o pessoal admirava a forma como eu trabalhava lá, fazia render o serviço. O torno fazia tudo quanto era peça. Parafuso, rosca, pinos. Torneava aro de roda, roda, até isto torneava.

A locomotiva a vapor dava muito trabalho, muito serviço pra gente. Chegava para reparar a gente desmontava ela todinha, tirava as rodas. Eu que torneava as peças das locomotivas que desmontavam, os artífices levavam pra gente. Eu trabalhei neste depósito, eu passo ali até me corta o coração hoje. Ficar 36 anos ali, e ver o estado que tá lá, o abandono. Corta o coração da gente.

De fato que o povo vinha fazer a mocidade, namorar e andar era aqui na estação, nesta plataforma, depois passaram a cobrar acho que 300 reis para entrar na ali, mas ferroviário não pagava não, só os outros. È fazia a avenida ai, e era um movimento, nesta plataforma todinha ficava gente pra lá e pra cá. Era até divertido, a gente ganhava pouco mas era divertido. E a tranquilidade que tinha, hoje não tem mais tranquilidade.

Na estação tinha um jornaleiro, chamava se Arthuzinho, coitado, acho que ele tinha artrose como eu tenho hoje. Ele andava um pouquinho e parava. Ele era o jornaleiro que andava no trem. Ele vendia dentro do trem. O trem ia da daqui até Cruzeiro aí ele voltava e o trem seguia. Outro dia ele pegava o trem até Varginha, era assim, vivia nos trens. Vendia estas revistas do tempo, jornal, revista.

Vou contar de um maquinista, Orosindo que ele chamava, mas chamavam ele de Rosendo, ele andava bem arrumado, de guarda pó, com um relógio e uma corrente atravessada assim no paletó, ele parecia um doutor. Perguntavam para ele: – o seu Rosendo, quantas horas? – Tá comendo! Não sabia nem olhar as horas e fazia os horários dos trens, por incrível que pareça, pela braçagem. Braçagem é o que toca o trem. Ele olhava e fazia o horário certinho. Tem certas coisas que a gente nunca esquece.

Mas graças a Deus, trabalhei 36 anos e não deixei um inimigo, sai de cabeça erguida e cheguei a comandar. Neste caso eu fui chefe de turma porque eu tava substituindo o chefe, que adoeceu e saiu. Eu toda a vida eu elogiei a ferrovia, vivi ali, criei 2 filhas, tenho minha casa própria, arrumei uma pra filha também, e não tenho nada que reclamar, só tenho que agradecer a ferrovia. Pra mim, se eu pudesse, estaria trabalhando até hoje.

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