{"id":98,"date":"2019-08-13T16:02:11","date_gmt":"2019-08-13T19:02:11","guid":{"rendered":"http:\/\/museudaoralidade.org.br\/?p=98"},"modified":"2021-04-27T14:29:32","modified_gmt":"2021-04-27T17:29:32","slug":"98","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/museudaoralidade.org.br\/?p=98","title":{"rendered":"A minha hist\u00f3ria \u00e9 longa"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_49\" style=\"width: 710px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-49\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/museudaoralidade.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/paulo-freitas-foto-paulo-morais-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"467\" class=\"size-large wp-image-49\" srcset=\"https:\/\/museudaoralidade.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/paulo-freitas-foto-paulo-morais.jpg 1024w, https:\/\/museudaoralidade.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/paulo-freitas-foto-paulo-morais-300x200.jpg 300w, https:\/\/museudaoralidade.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/paulo-freitas-foto-paulo-morais-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><p id=\"caption-attachment-49\" class=\"wp-caption-text\">Paulo de Freitas, ferrovi\u00e1rio de Tr\u00eas Cora\u00e7\u00f5es (MG). Foto: Paulo Morais<\/p><\/div>\n<p>Museu da Oralidade<\/p>\n<p>Projeto Mem\u00f3ria dos Ferrovi\u00e1rios Tricordianos<\/p>\n<p>Entrevista: Andressa Iza Gon\u00e7alves<\/p>\n<p>Paulinho de Freitas<\/p>\n<p>Nome completo e data de nascimento?<br \/>\nPaulo Louren\u00e7o de Freitas, nasci no dia 10 de agosto de 1933, portanto voc\u1ebd faz a conta a\u00ed, voc\u00ea \u00e9 boa de matem\u00e1tica, vou fazer 78 anos.<\/p>\n<p>O pai do senhor foi ferrovi\u00e1rio?<br \/>\nMeu pai nunca foi ferrovi\u00e1rio, foram meus 5 irm\u00e3os, meu pai era carpinteiro, o nome dele era Ant\u00f4nio Pedro de Freitas, morreu com 60 anos de idade, e eu t\u00f4 com 78, n\u00e9?<\/p>\n<p>Conversa no trajeto dep\u00f3sito &#8211; maria fuma\u00e7a &#8211; esta\u00e7\u00e3o<br \/>\nAo longo da ferrovia toda aqui, que n\u00f3s \u00e9ramos compreendidos entre Jur\u00e9ia,  Cruzeiro, Sapuca\u00ed e Barra Mansa e Barra do Pira\u00ed, ent\u00e3o tudo vinha para c\u00e1, consertar rel\u00f3gio, tamb\u00e9m era reparado a\u00ed, s\u00f3 quando tinha reparo total, quando tinha o reparo total ia para Divin\u00f3plis, que era a maior oficina, mas os reparos que a gente tratava na \u00e9poca, at\u00e9 os ferrovi\u00e1rios tinha muita alcunha, ent\u00e3o tratava-se de meia sola, a meia sola, a meia sola era aqui, vinha aqui, era pouca coisa, arrumar um puxavante, arrumar uma caixa de graxa, agora quando era para trocar, limpeza de caldeira, trocar coisas mais internas, isto a\u00ed era Divin\u00f3polis, ou ent\u00e3o a pintura totalmente dito. A pintura fazia em Divin\u00f3polis a pintura total, tirava tudo, ent\u00e3o ia para Divin\u00f3polis que era a maior oficina do estado de minas. Depois foi a maior do Brasil.<\/p>\n<p>Esta Maria Fuma\u00e7a rodou aqui por muitos anos, puxou trem de passageiro, puxou trem de boi, puxou especial de caf\u00e9, entre aqui Cruzeiro, Soledade, Jur\u00e9ia, Machado, Tr\u00eas Pontas, esta era uma, tinha v\u00e1rias. Aqui no dep\u00f3sito de  Tc tinha umas 20 deste tipo, tinha v\u00e1rios tipos. Tinha umas maior, tinha mais possante, outro tipo de locomotiva, e tinha estas menorzinha a\u00ed, elas eram reservadas para trabalhar na linha de Jur\u00e9ia, que \u00e9 a linha n\u00f3s tratava de linha fraca, os trilhos eram fininhos, era a linha fraca porque as locomotivas mais pesadas trabalhava na linha mais forte que era Tr\u00eas Cora\u00e7\u00f5es- Cruzeiro, Tr\u00eas Cora\u00e7\u00f5es &#8211; Lavras.  Jur\u00e9ia \u00e9 aqui depois de Varginha, ent\u00e3o se passa Varginha, Batista de Melo, Gaspar Lopes, Areado, vai para Harmonia, vai para Movimento, chega em Jur\u00e9ia que cruza com a Mogeana, quase l\u00e1 perto de Monte Belo. E a\u00ed, tinha a outra parte que ia at\u00e9 l\u00e1 em cima.<\/p>\n<p>Quando o senhor entrou para a ferrovia?<\/p>\n<p>A minha hist\u00f3ria \u00e9 quase de 40 anos, \u00e9 uma hist\u00f3ria longa, eu entrei para a ferrovia l\u00e1 na minha terra, que \u00e9 Bom Retiro, perto de de Itanhandu. Eu trabalhava l\u00e1 na fazenda do meu pai, num s\u00edtio, e quando eu  ia para a escola, era uma escola de ro\u00e7a, eu passava na esta\u00e7\u00e3o e gostava de conversar com o chefe da esta\u00e7\u00e3o. O chefe da esta\u00e7\u00e3o deixava que eu entrasse na ag\u00eancia e fosse praticando, aprendi o tel\u00e9grafo com uma rapidez tremenda.<br \/>\nQuando a Rede Mineira de Via\u00e7\u00e3o, abriu vaga, o servi\u00e7o come\u00e7ou a aumentar, pois uma grade maioria de funcion\u00e1rios da rede, inclusive telegrafista, foram para a guerra, uns morreram e outros ficaram, a\u00ed uma grande maioria ganhou promo\u00e7\u00e3o, foi promovido  a tenente, oficial e ficaram no ex\u00e9rcito. A rede ficou sem gente, e n\u00e3o \u00e9 que pegavam qualquer um, mas aquele que tivessem mais ou menos trabalhando, que era o meu caso, eles pegaram at\u00e9 fora da idade, eu era menino ainda. A\u00ed o que aconteceu, me admitiram na ferrovia, mas o meu irm\u00e3o que trabalhava na ferrovia, que era mais velho, ele foi o meu abonador, vamos colocar no aspecto jur\u00eddico, curador, mas na realidade ele era o abonador respons\u00e1vel, ent\u00e3o ele ficou como sendo respons\u00e1vel por mim, agora eu trabalhava por a\u00ed, por estas esta\u00e7\u00f5es de ro\u00e7a, por estas esta\u00e7\u00f5es toda. Ia para Aiuruoca, Cruz\u00edlia, Caxambu, subia at\u00e9 Carvalho e ia at\u00e9 Bom Jardim, entrava na linha de Sapuca\u00ed eu ia em Perd\u00e3o, Maria da F\u00e9, Jacutinga, Itajub\u00e1, Pouco Alegre ia at\u00e9 Sapucai. E aqui nesta linha que a gente tratava de tronco ia at\u00e9 Cruzeiro, at\u00e9 Jur\u00e9ia, eu trabalhei em todas, na \u00e9poca eu era solteiro ent\u00e3o solteiro ia. Pousava daqui, dali e depois de um determinado tempo que eu vim para servir o ex\u00e9rcito, eu precisava servir o ex\u00e9rcito porque eu precisava do certificado de reservista. Eu vim,  mas na inten\u00e7\u00e3o de fazer a Escola de Sargento das Armas, que eu queria ser militar, mas realmente eu n\u00e3o fui feliz, porque eu n\u00e3o passei no exame de sa\u00fade, porque eu era baixinho, para servir tinha que ter uma altura certa e eu n\u00e3o tinha a altura, a\u00ed eu fui dispensado e voltei para a ferrovia. E voltei  aqui em Tr\u00eas Cora\u00e7\u00f5es, j\u00e1 trabalhando por aqui.<\/p>\n<p>O senhor veio em que ano pra TC?<br \/>\nEu vim para c\u00e1 em 50, 13 de junho de 1950, Santo Ant\u00f4nio. Cheguei aqui em 1950, e fiquei aqui, j\u00e1 viu quando o, comparando, o cachorro cai do caminh\u00e3o de mudan\u00e7a, fica sem saber pra onde vai, eu cheguei aqui crian\u00e7a, um frio de matar, pensei isto aqui \u00e9 o fim do mundo, e eu que n\u00e3o vou atravessar para o lado de l\u00e1 n\u00e3o, a\u00ed arrumei um jeito de ficar por aqui, e n\u00e3o fui para o lado de l\u00e1 nem pra tomar um caf\u00e9. Eu tive medo de ir e n\u00e3o voltar. Tive medo porque achei a cidade grande, um movimento tremendo, soldado indo pra l\u00e1 e pra c\u00e1. O soldado chegando, o trem chegando, o soldado saindo, o pessoal descendo pra l\u00e1, vindo pra c\u00e1, muita gente mesmo, era um movimento extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>E o senhor fazia o que aqui?<br \/>\nAqui eu trabalhava no tel\u00e9grafo, e fazia o que n\u00f3s trat\u00e1vamos de compositor, mas n\u00e3o \u00e9 o compositor de m\u00fasica n\u00e3o, isto aqui \u00e9 a composi\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o a gente formava os trens aqui, aqui tinha dez, doze trens aqui por dia, a gente formava o trem para os devidos destinos, para Cruzeiro, para Soledade, para Varginha, para Batista de Melo, para Jur\u00e9ia e para Lavras. Ent\u00e3o voc\u00ea precisava saber disto tudo, todos os vag\u00f5es pelo n\u00famero, saber para onde ia, e ia formar os trens. Por exemplo formar um trem de carga, s\u00f3 carga para Cruzeiro, quais os carros que voc\u00ea tem que formar. O chefe do movimento que determinava atrav\u00e9s de telegramas quais os carros ir no primeiro trem ent\u00e3o voc\u00ea ia com os guardas e fazia a escolha dos carros que deviam subir, ent\u00e3o eu trabalhava aqui e ao mesmo tempo trabalhava no tel\u00e9grafo, ao mesmo tempo vendia bilhete, a fazia todo o servi\u00e7o, tudo quanto era servi\u00e7o eu fazia. Eu ajudava inclusive os guardas na manobra, eu gostava de trabalhar muito.<br \/>\n    Depois eu precisava do certificado de reservista, servi como volunt\u00e1rio aqui no quartel, ai eu tirei, a\u00ed eu fiquei l\u00e1, fui at\u00e9 promovido a cabo, fiquei um tempo com no ex\u00e9rcito, mas n\u00e3o fiquei desligado daqui,  a Rede Mineira de Via\u00e7\u00e3o me pagava, a\u00ed eu dispensava de receber qualquer coisa do ex\u00e9rcito, um soldado deve ganhar por exemplo na \u00e9poca que eu servi ganhava 800 reais, n\u00e3o 800 cruzeiros, que valia hoje a 8 reais, n\u00e9? Era um dinheiro para voc\u00ea comprar alguma coisa na rua, ir no cinema, mas eu dispensei de receber qualquer coisa do ex\u00e9rcito. Depois eu tive uma oferta para ser promovido a sargento, mas a Rede me chamou tamb\u00e9m, porque a minha  volta estava condicionava a apresenta\u00e7\u00e3o do certificado de reservista.  A\u00ed voltei at\u00e9 aposentar. Eu aposentei como ferrovi\u00e1rio federal, terminei meu dia aqui em 1981, no dia 31 de outubro de 1981, a\u00ed deixei muita saudade aqui, muita saudade mesmo.<\/p>\n<p>O senhor viajou muito de trem?<\/p>\n<p>Viajava, s\u00f3 tinha este transporte, n\u00e9. N\u00f3s t\u00ednhamos um abatimento no transporte, se n\u00f3s n\u00e3o est\u00e1vamos de f\u00e9rias, era 75 % da passagem, se n\u00f3s est\u00e1vamos de f\u00e9rias, n\u00f3s t\u00ednhamos o passe gratuito, a\u00ed tirava o passe gratuito e andava para onde queria. De trem eu fui at\u00e9 Vit\u00f3ria, e aqui na parte da Mogiana, aqui para baixo, eu fui at\u00e9 Po\u00e7os de Caldas, daqui para o lado de Sapuca\u00ed, eu fui at\u00e9 l\u00e1 no entroncamento de Bauru, eu fui at\u00e9 l\u00e1 no Central do Brasil, andei na Leopoldina, andei na Paulista, tive em Jundia\u00ed, andei na Paran\u00e1-Santa Catarina. Desci at\u00e9 Curitiba, no tempo que a ferrovia  era um espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>O senhor tem muita saudade deste tempo?<\/p>\n<p>Ah , nem  fale minha filha, eu te contar \u00e9 gostoso, n\u00f3s fic\u00e1vamos aqui. Imagina voc\u00ea que n\u00f3s \u00e9ramos t\u00e3o amigo do ferrovia que n\u00f3s tivemos um per\u00edodo que quando eu entrei na Rede, n\u00f3s est\u00e1vamos atrasados 6 meses de pagamento, nenhum ferrovi\u00e1rio deixava, e n\u00f3s arrum\u00e1vamos o pr\u00e9dio onde n\u00f3s trabalhava material para a ferrovia, l\u00e1pis, tinta, caneta, papel carbono, barbante, tudo a gente comprava para n\u00e3o deixar que nada ficasse prejudicado. Pagava passagem quando vencia o prazo das f\u00e9rias, trabalhava fora de hora, n\u00e3o faz\u00edamos conta de hor\u00e1rio nenhum , isto \u00e9 todo ferrovi\u00e1rio, era domingo n\u00f3s est\u00e1vamos trabalhando.<\/p>\n<p>Quantos trem passavam por dia aqui?<br \/>\nNaquela \u00e9poca n\u00f3s t\u00ednhamos dois expressos, expresso da manh\u00e3, expresso da noite, e o noturno Belo Horizonte, 3 expressos. Um misto para Jure\u00eda, ida e volta, dois, um misto para Cruzeiro, ida e volta, quatro e um misto para Lavras, ida e volta 6, este era de passageiro. O misto \u00e9 o seguinte tinha 4 ou 5 carros de passageiro e o resto aproveitava com vag\u00e3o de mercadoria, de carga, agora o expresso n\u00e3o, \u00e9 s\u00f3 trem de passageiro. Na \u00e9poca de romaria, por exemplo no m\u00eas de junho, era \u00e9poca de romaria, aquilo era um espet\u00e1culo, ia a Cruzerio, o pessoal da Central j\u00e1 tava comunicado com n\u00f3s,  tinha l\u00e1 j\u00e1  um  trem da rede, ent\u00e3o eles saltavam do trem da rede e pegava o trem da Central que ia at\u00e9 Aparecida do Norte, no outro dia j\u00e1 tinha trem em Aparecida, esperando para voltar, j\u00e1 escalado para trazer o pessoal evidentemente at\u00e9 chegar aqui. Quando este povo voltava de Aparecida era outra festa, precisava ver que festa, o pessoal esperando, uma grande maioria n\u00e3o tinha carro, eles esperavam de charrete, esperavam a cavalo, porque era  povo aqui, do lado de Carmo da Cachoeira, S\u00e3o Bento, de S\u00e3o Thom\u00e9, mas n\u00e3o muito Cambuquira, porque Cambuquira pegava l\u00e1 tamb\u00e9m, porque tinha o trem de Cambuquira que pegava aqui na esta\u00e7\u00e3o de Freitas e ia at\u00e9 s\u00e3o Gon\u00e7alo, este \u00e9 um trem que ia voltava.<\/p>\n<p>Tinha vendedor aqui na esta\u00e7\u00e3o?<br \/>\nTinha, vendedores, mas era revista, porque tinha um bar ali, eu esqueci de te falar, ao lado ali tinha um bar, tinha um cidad\u00e3o que explorava o bar, era caf\u00e9, caf\u00e9 com leite, p\u00e3o com manteiga, biscoito, bolo, etc. Que os passageiros compravam  e tinha para dentro, depois vou te mostrar o restaurante, ent\u00e3o dava comida ali, prato feito, refei\u00e7\u00e3o completa, etc, mas sempre tinha   aqui a pens\u00e3o Palmyra que era qui pertinho ent\u00e3o quando n\u00e3o dava l\u00e1 eles desciam correndo e almo\u00e7ava por aqui. Ent\u00e3o era bem, tinha bem condi\u00e7\u00f5es de comprar, e quando as vezes tinha um intervalo maior por quest\u00e3o de atraso, porque as vezes atrasava, ent\u00e3o a gente autorizava para eles, passava pra eles os hor\u00e1rios certinhos, eles iam pro centro passear, na cidade e voltavam na hora certinha para embarcar.<\/p>\n<p>Como era o servi\u00e7o que telegrafista?<\/p>\n<p>O tel\u00e9grafo na \u00e9poca, inda existe o tel\u00e9grafo, mas n\u00e3o existe  mais o morse, o morse, \u00e9 uma pena que levaram todos os aparelhos daqui, em Lavras tem, l\u00e1 no museu de Lavras, acho que tem um tel\u00e9grafo na Casa de Cultura. Voc\u00ea v\u00ea a diferen\u00e7a de um r\u00e1dio seu, de um celular seu, e um tel\u00e9grafo era deste tamanho, ent\u00e3o o tel\u00e9grafo \u00e9 o seguinte, ele funcionava com uma especie de um reservat\u00f3rio de bateria, n\u00e3o era bateria, vamos dizer assim corda, voc\u00ea dava corda para correr uma fita que saia, n\u00e3o escrita, saia era pingo e letra, mas quem usava este tipo de bateria, de pingo e letra, usava s\u00f3 o ouvido, transmitia e recebia pelo som, tinha 3 sons, tinha o som da pena, tinha o som da pena redonda que batia, que era uma rodinha, a pena \u00e9 uma rodinha e batia o pingo e linha   com aquela rodinha, vc imagina e era uma roda mesmo, e tinha o som da pena que ela batia num dispositivo aqui que passava a fita por baixo, e ela batia aqui assim. Tinha o som do estilete que era o que dava o som logo em cima e tinha o som da b\u00fassola, n\u00f3s tinha tamb\u00e9m. Quando voc\u00ea n\u00e3o queria que fizesse barulho voc\u00ea desligava tudo, desatarraxava, e s\u00f3 olhava pela b\u00fassola, trabalhava pela b\u00fassola, depois quando veio o r\u00e1dio, a\u00ed n\u00f3s trabalhava pela luz, mais voc\u00ea trabalhava pela b\u00fassola para ningu\u00e9m escutar,  se era recomendado, que vinha uma recomenda\u00e7\u00e3o que ia sair um telegrama que era sigiloso, ent\u00e3o voc\u00ea tirava o som e tirava ele s\u00f3 pela b\u00fassola.<\/p>\n<p>A rede disponibilizava este servi\u00e7o a popula\u00e7\u00e3o?<br \/>\nN\u00e3o ela s\u00f3 oferecia este servi\u00e7o aonde os correios e tel\u00e9grafos n\u00e3o tinham este servi\u00e7o, ent\u00e3o n\u00f3s faz\u00edamos este servi\u00e7o. Por exemplo Flora n\u00e3o tinha os correios, o tel\u00e9grafo, Carneiro de Rezende n\u00e3o tinha o tel\u00e9grafo, Cota, S\u00e3o Thome n\u00e3o tinha o tel\u00e9grafo, e outras esta\u00e7\u00f5es mais longe, n\u00f3s faz\u00edamos este servi\u00e7o, ent\u00e3o o correio trazia para n\u00f3s e n\u00f3s transmitia para ele, tinha um interc\u00e2mbio neste sentido.<\/p>\n<p>Quais eram as esta\u00e7\u00f5es daqui de Tr\u00eas Cora\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>As esta\u00e7\u00f5es nossas aqui pertinho era Flora, 12 , 13 km, Carneiro de Resende, 12 km pro lado aqui de Lavras, Cota, aqui pro lado de c\u00e1, Cota era 20 km, mais perto ainda tava S\u00e3o Thom\u00e9, 35 km, depois Campo Limpo, adiante de Carneiro Resende, depois ia a Salto, depois ia a Carmo da Cachoeira, Servo, Faria, Rosa, Costa Pinto e chegava em Lavras. E aqui voc\u00ea ia pra Flora, Juriti, a segunda esta\u00e7\u00e3o, a\u00ed depois mais pra frente chegava em Varginha, saia de Varginha, voc\u00ea subia, que era um pouco de subida, uma serrinha, desce a serra, do alto desta serra para o outro lado um lugar chamava Garoa, depois descia Batista de Melo, e ia l\u00e1 em baixo na curva do rio, era Nogueira, Espera, chegava em espera voc\u00ea saia pra ir a Tr\u00eas Pontas, e seguia pra ir a Pontalete, Jovino de Brito, Fama, Gaspar Lopes, tem fazia o entrocamento para Machado, depois voc\u00ea ia para Areada, ia para Harmonia, ia para Engenheiro Trombosque, Jureia, mas isto era 300 km.<\/p>\n<p>Das esta\u00e7\u00f5es daqui, existe alguma coisa?<br \/>\nExiste uma tristeza, se voc\u00ea olhar a esta\u00e7\u00e3o de Cota, d\u00e1 uma tristeza, d\u00e1 vontade de chorar. T\u00e1 l\u00e1 coitada, morrendo. Agora o S\u00e3o Thom\u00e9 voc\u00ea precisa ver  esta\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Thom\u00e9 que beleza, carimbo tamb\u00e9m, mas ela \u00e9 constru\u00edda de pinho de riga, aquela madeira rica, aquela madeira que na realidade \u00e9 a madeira que&#8230;.  aqui tava cheio dela, roubaram tudo, acabaram com ela, aqui voc\u00ea v\u00ea que tem o sinal  de uma vala, que ia at\u00e9 o canto do muro, aqui n\u00f3s coloc\u00e1vamos os vag\u00f5es para olhar por baixo dele e ver o que tinha, trocar sapata de freio Aqui era um movimento danado. Aqui na oficina aqui tinha, contando com as senhoras do , tinha umas senhoras que trabalhavam no escrit\u00f3rio, o chefe, os encarregados, tinha mais de 60 pessoas, trabalhava aqui, maquinista, todo mundo que fazia parte da oficina, porque aqui era a oficina. Quando apitava aqui \u00e0s 11 horas para o povo ir almo\u00e7ar, a rua da Cotia ficava azuladinha, porque n\u00f3s trabalhava com um uniforme azul. Ent\u00e3o era uma beleza!<\/p>\n<p>Quando o senhor percebeu que a ferrovia estava entrando em decad\u00eancia?<br \/>\nA ferrovia entrou em decad\u00eancia justamente foi quando asfaltou a Fern\u00e3o Dias. Quando come\u00e7ou a rasgar a Fern\u00e3o Dias, como se diz na g\u00edria, que a Fern\u00e3o Dias come\u00e7ou a usar, cheia de barro, daquele jeito mesmo que o pessoal come\u00e7ou a usar, a\u00ed ela j\u00e1 come\u00e7ou, a\u00ed come\u00e7aram a dar prefer\u00eancia pros lado de l\u00e1. Na realidade nosso meio de transporte era seguro, nosso trasnsporte era respons\u00e1vel, mas era lento. J\u00e1 come\u00e7ava a ficar lento para a nossa vida. Ent\u00e3o eu tava vendo hoje, o A\u00e9cio foi no Rio, depois foi a outro lugar, depois outro e depois ainda voltou no Rio,e fez tudo que voc\u00ea tinha que fazer, e para se ter uma ideia, ir de TC a Cruzeiro, voc\u00ea levava 6 horas, se corresse tudo bonitinho, e corria tudo bem. Ent\u00e3o saia daqui horas, chegava l\u00e1 meio dia, meio dia e pouquinho. Daqui a Cruzeiro d\u00e1 170 km.<\/p>\n<p>Algum acontecimento que te marcou na ferrovia?<br \/>\nComigo n\u00e3o, n\u00e3o presenciei. Teve a explos\u00e3o do vag\u00e3o, esta explos\u00e3o do vag\u00e3o eu n\u00e3o estava aqui mas ela acabou com tudo. Acabou com a esta\u00e7\u00e3o l\u00e1 , acabou com a cidade, quebrou muito coisa. Era um vag\u00e3o met\u00e1lico que tava lotado com explosivos, para o quartel, gasolina, querosene, p\u00f3lvora, bala, estopa, era explosivo, totalmente explosivos. Eu n\u00e3o sei porque raz\u00e3o este carro veio de Cruzeiro, ele chegou a\u00ed e encostou este carro a\u00ed, quando deu 2 horas da tarde ele pegou fogo, ningu\u00e9m p\u00f4s, e o carro pegou fogo. O calor porque ele era met\u00e1lico, o calor dele passou pra dentro, o certo \u00e9 que pegou fogo, o certo \u00e9 que o vag\u00e3o acabou, o certo \u00e9 que a locomotiva que puseram, puseram atr\u00e1s dele para segurar, ela tamb\u00e9m acabou. E s\u00f3 houve uma morte, imprud\u00eancia do guarda freios que tava l\u00e1, porque a coisa pegou fogo aqui, tava arrebentado tudo, era peda\u00e7o de ferro que voava e levantado um poeir\u00e3o louco a\u00ed, no que ele pega e vai atravessar, ele foi infeliz, um peda\u00e7o de ferro pegou ele e foi um tombo, morreu na hora, na linha ali. Este foi o acontecimento que houve aqui, e eu n\u00e3o presenciei.<\/p>\n<p>Qual sua mensagem final?<br \/>\nA mensagem que eu deixo \u00e9 o seguinte eu lamento n\u00e3o poder fazer mais nada, pra que a gente pudesse recobrar ou reconstruir ou renovador alguma coisa, mesmo porque, minha filha, o material existente aqui \u00e9 um material muito bom, olha bem este pr\u00e9dio aqui, ele est\u00e1 acabando justamente porque n\u00e3o teve a conserva\u00e7\u00e3o, porque se tivesse a conserva\u00e7\u00e3o estas telhas n\u00e3o tinham ca\u00eddo, consequentemente isto n\u00e3o apodrecia, e consequentemente pessoas menos  desavisadas n\u00e3o viriam aqui pra quebrar, porque quem levou estas portas, ele veio para  quebrar, ele n\u00e3o veio tirar com cuidado, desparafusar, da maneira que ele chegou ele arrancou isto, arrebentou, e levou o material.<\/p>\n<p>Hoje eu sou advogado, tenho cursos superiores, administra\u00e7\u00e3o de empresas e ci\u00eancia cont\u00e1beis, fiz um monte que cursos, de sociologia, cursos de comunica\u00e7\u00e3o, mas eu ponho nos meus documentos, profiss\u00e3o: ferrovi\u00e1rio aposentado, porque na realidade, eu falo isto com muito orgulho, se seu sou o que sou foi a ferrovia que me fez.<\/p>\n<p>Seu Paulinho de Freitas faleceu em abril de 2021. Fica aqui nossa homenagem. Sentimentos para toda a fam\u00edlia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a href=\"https:\/\/museudaoralidade.org.br\/?p=98\" rel=\"bookmark\" title=\"Link permanente A minha hist\u00f3ria \u00e9 longa\"><p>Museu da Oralidade Projeto Mem\u00f3ria dos Ferrovi\u00e1rios Tricordianos Entrevista: Andressa Iza Gon\u00e7alves Paulinho de Freitas Nome completo e data de nascimento? Paulo Louren\u00e7o de Freitas, nasci no dia 10 de agosto de 1933, portanto voc\u1ebd faz a conta a\u00ed, voc\u00ea \u00e9 boa de matem\u00e1tica, vou fazer 78 anos. O pai do senhor foi ferrovi\u00e1rio? 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