{"id":93,"date":"2019-08-13T15:57:28","date_gmt":"2019-08-13T18:57:28","guid":{"rendered":"http:\/\/museudaoralidade.org.br\/?p=93"},"modified":"2019-08-13T15:57:28","modified_gmt":"2019-08-13T18:57:28","slug":"nos-todos-nascemos-e-crescemos-na-beirada-da-rede","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/museudaoralidade.org.br\/?p=93","title":{"rendered":"N\u00f3s todos nascemos e crescemos na beirada da rede"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_50\" style=\"width: 710px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-50\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/museudaoralidade.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/terezinha-ferreira-foto-paulo-morais-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"467\" class=\"size-large wp-image-50\" srcset=\"https:\/\/museudaoralidade.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/terezinha-ferreira-foto-paulo-morais.jpg 1024w, https:\/\/museudaoralidade.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/terezinha-ferreira-foto-paulo-morais-300x200.jpg 300w, https:\/\/museudaoralidade.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/terezinha-ferreira-foto-paulo-morais-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><p id=\"caption-attachment-50\" class=\"wp-caption-text\">Terezinha Ferreira, ferrovi\u00e1ria de Tr\u00eas Cora\u00e7\u00f5es. Foto: Andressa Gon\u00e7alves<\/p><\/div>\n<p>Meu cunhado era ferrovi\u00e1rio, meu irm\u00e3o de cria\u00e7\u00e3o era ferrovi\u00e1rio, n\u00f3s todos nascemos e crescemos na beirada da rede. Meu nome \u00e9 Terezinha Ferreira Mois\u00e9s. Depois de certa idade a gente n\u00e3o se importa mais de falar: eu nasci em 10 de abril de 1931. Eu nasci e fui criada nesta rua, era muito gostoso, era muito tranquilo, a cidade era tranquila demais.<\/p>\n<p>Teve um concurso a\u00ed, mil e tantas pessoas, e pasaram vinte e poucos. N\u00f3s todas fomos encaixadas na hora, eu trabalhei 30 anos e seis meses. Onde \u00e9 a Cl\u00ednica do SUS era tudo da rede. Ali onde era a loja de m\u00f3veis, subindo a rua, tamb\u00e9m era da rede. Eu comecei a trabalhar no escrit\u00f3rio ali, o patrim\u00f4nio da rede era enorme.<\/p>\n<p>Eu era escritur\u00e1ria. N\u00f3s \u00e9ramos muitas, s\u00f3 mulheres tinha 45 l\u00e1 na rede e tinha os homens que era mais ainda. O escrit\u00f3rio era enorme, era imenso, o sal\u00e3o que a gente trabalhava era maior que um sal\u00e3o de baile.<\/p>\n<p>Eu trabalhava na se\u00e7\u00e3o de transporte e o meu marido na via permanente, e l\u00e1 n\u00f3s conhecemos, namoramos e casamos. A gente se conheceu na hora dos intervalos, porque a gente trabalhava das 8 \u00e0s 11 e ia almo\u00e7ar, depois voltava, e ali pelas 3 horas tinha um caf\u00e9. Era uma del\u00edcia. A gente conversava tudo, e foi ali, mas n\u00e3o foi s\u00f3 eu que casei com colega, n\u00e3o, eram mais uns quatro casais que tamb\u00e9m eram de ferrovi\u00e1rio.<\/p>\n<p>A oficina era dos homens. As mulheres s\u00f3 trabalhavam no escrit\u00f3rio e os homens tinham o dep\u00f3sito da rede. Tinha tamb\u00e9m a esta\u00e7\u00e3o, que controlava o tr\u00e1fego. Aqui tinha mais de 200 ferrovi\u00e1rios, contando tudo, escrit\u00f3rio, resid\u00eancia, dep\u00f3sito. Tinha muito ferrovi\u00e1rio que fazia casa dentro do terreno da rede, depois quando come\u00e7ou a terminar a rede, entrou l\u00e1 os militares come\u00e7aram acabar com o servi\u00e7o, eles come\u00e7aram a passar as casas pro nome dos ferrovi\u00e1rios que ocupavam.<\/p>\n<p>A gente cuidava da vida dos outros, como diziam nossos colegas de fora, eram as fofoqueiras. Cuidava da vida deles, do comportamento, de fam\u00edlia. Se precisava de encaminhar para m\u00e9dico fora daqui, alguma coisa que precisasse, era n\u00f3s que resolv\u00edamos. A folha de pagamento era feita por n\u00f3s e mandada para Belo Horizonte, l\u00e1 eles efetuavam o pagamento. Vinha num carro, era um carro pagador, mas era uma beleza! Era igual um vag\u00e3o de passageiro, s\u00f3 que gradeado. Nunca roubaram, naquele tempo era muito diferente que hoje.<\/p>\n<p>Ali do lado tinha a cooperativa dos ferrovi\u00e1rios. A gente vendia e comprava de tudo l\u00e1, desde mantimento at\u00e9 roupa, e era tudo pela metade do pre\u00e7o que a gente pagava na cidade. Descontava no fim do m\u00eas no ordenado.<\/p>\n<p>Nossa, eu ia para tudo quanto era lugar, eu ia para BH de trem, era mais de 24 horas de viagem, porque ela passava por Lavras, depois ia at\u00e9 Divin\u00f3polis, para depois ir chegar a BH. Ia pro Rio de trem, ia at\u00e9 Cruzeiro, l\u00e1 a gente ganhava Central do Brasil e ia ao Rio, depois a gente viajava de gra\u00e7a. Em qualquer ferrovia a gente ia de gra\u00e7a, Tenho muito saudade,mas muita,  at\u00e9 que agora j\u00e1 t\u00e1 diminuindo. Nossa quando eu aposentei parecia que tava me faltando um dedo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a href=\"https:\/\/museudaoralidade.org.br\/?p=93\" rel=\"bookmark\" title=\"Link permanente N\u00f3s todos nascemos e crescemos na beirada da rede\"><p>Meu cunhado era ferrovi\u00e1rio, meu irm\u00e3o de cria\u00e7\u00e3o era ferrovi\u00e1rio, n\u00f3s todos nascemos e crescemos na beirada da rede. Meu nome \u00e9 Terezinha Ferreira Mois\u00e9s. Depois de certa idade a gente n\u00e3o se importa mais de falar: eu nasci em 10 de abril de 1931. Eu nasci e fui criada nesta rua, era muito gostoso, [&hellip;]<\/p>\n<\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"spay_email":""},"categories":[3],"tags":[4,6,5],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/museudaoralidade.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/93"}],"collection":[{"href":"https:\/\/museudaoralidade.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/museudaoralidade.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/museudaoralidade.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/museudaoralidade.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=93"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/museudaoralidade.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/93\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":94,"href":"https:\/\/museudaoralidade.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/93\/revisions\/94"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/museudaoralidade.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=93"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/museudaoralidade.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=93"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/museudaoralidade.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=93"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}