{"id":40,"date":"2019-08-13T14:48:33","date_gmt":"2019-08-13T17:48:33","guid":{"rendered":"http:\/\/museudaoralidade.viraminas.org.br\/?p=40"},"modified":"2019-08-13T15:44:12","modified_gmt":"2019-08-13T18:44:12","slug":"a-gente-viajava-em-cima-do-trem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/museudaoralidade.org.br\/?p=40","title":{"rendered":"A gente viajava em cima do trem"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_47\" style=\"width: 1034px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-47\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/museudaoralidade.viraminas.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/joao-geraldo-foto-paulo-morais-1024x683.jpg\" alt=\"Jo\u00e3o Geraldo, ferrovi\u00e1rio de Tr\u00eas Cora\u00e7\u00f5es (MG)\" width=\"1024\" height=\"683\" class=\"size-large wp-image-47\" srcset=\"https:\/\/museudaoralidade.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/joao-geraldo-foto-paulo-morais.jpg 1024w, https:\/\/museudaoralidade.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/joao-geraldo-foto-paulo-morais-300x200.jpg 300w, https:\/\/museudaoralidade.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/joao-geraldo-foto-paulo-morais-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><p id=\"caption-attachment-47\" class=\"wp-caption-text\">Jo\u00e3o Geraldo, ferrovi\u00e1rio de Tr\u00eas Cora\u00e7\u00f5es (MG). Foto: Paulo Morais<\/p><\/div>\n<p>Meu nome completo \u00e9 s\u00f3 Jo\u00e3o Geraldo. Eu tenho duas datas, mas a data que minha m\u00e3e me p\u00f4s no mundo \u00e9 13 de julho de 1926, mas no meu documento \u00e9 de primeiro de agosto de 1926. Eu entrei na estrada de ferro dia 15 de agosto de 1946. eu entrei com 20 anos. Faz 30 anos que eu estou aposentado, eu sa\u00ed em 82, dia 31 de setembro de 82 que eu aposentei. A\u00ed eu  trabalhei 37 anos e sete meses, eu entrei como guarda freio. O guarda freio andava s\u00f3 em cima do carro. Depois eu passei para mec\u00e2nica, a\u00ed eu fui para o dep\u00f3sito e completei todo o meu tempo no dep\u00f3sito, mas dentro do dep\u00f3sito eu fazia tudo, eu era pedreiro, era carpinteiro, era mec\u00e2nico, na rede misturava tudo. Tudo que a gente sabia fazer, a gente fazia.<\/p>\n<p>A gente viajava em cima do trem. O trem carregava mercadoria, era arroz, feij\u00e3o, cereais, ent\u00e3o a gente fazia carga e descarga das mercadorias, viajei 8 anos como guarda freios. A gente tinha que viajar em cima do trem porque n\u00e3o tinha lugar, a gente zelava do trem, descarregava mercadoria, fazia todo o servi\u00e7o, dava lenha para a m\u00e1quina. Antigamente as m\u00e1quinas eram tudo a lenha, depois passou para carv\u00e3o. Quando tinha uma prancha, a gente viajava dentro da prancha, quando tinha um carro vazio no trem, e estava chovendo, a gente entrava dentro do carro, Quantas vezes eu sai de madrugada debaixo de um frio miser\u00e1vel em Passa Quatro.<\/p>\n<p>Estrada de ferro era meio perigoso, era lugar que morria gente a revelia, naquela \u00e9poca o sujeito abusava um pouco, ent\u00e3o a gente lidava com muito defunto, companheiro mesmo que morria em servi\u00e7o. Um morreu perto de Lavras, outro morreu l\u00e1 na Jureia.  Teve um companheiro meu, um tal de Clemente, eu viajei muito tempo com ele, ele morava na Cotia, ele caiu de um trem l\u00e1 perto da Jureia, de tardezinha, de l\u00e1 eles j\u00e1 levaram ele para Jureia, ele pousou l\u00e1 sozinho, no outro dia ele veio no trem de passageiro, saiu quatro e meia de manh\u00e3 de l\u00e1, quando era meio dia e pouco ele chegou aqui, ele veio dentro da bagagem at\u00e9 aqui, aqui que ele veio a receber o caix\u00e3o. Teve outro tamb\u00e9m que morreu na subida de Lavras, para c\u00e1 de Costa Pinto, era foguista, Olavo, ent\u00e3o ele foi por areia na frente da m\u00e1quina, porque quando chove,  o trilho fica liso, ent\u00e3o ele foi por areia, deitou na frente da m\u00e1quina, era a 249 a m\u00e1quina, n\u00e3o sei o que ele fez, escorregou, a m\u00e1quina passou por cima dele. Era um trem de boi, o maquinista era o seu Milton, eles puseram ele l\u00e1 atr\u00e1s no \u00faltimo carro, amarraram ele l\u00e1 e ele veio deitado amarrado at\u00e9 aqui, aqui que a fam\u00edlia foi tratar dele. N\u00e3o tinha este neg\u00f3cio de luxo, morreu l\u00e1, n\u00e3o tinha nada n\u00e3o.<\/p>\n<p>Todo ano eu marcavas f\u00e9rias para o m\u00eas de julho, e todo ano eu punha meus filhos dentro do trem, e ia todo mundo para Aparecida, fica um ou dois dias l\u00e1 e depois voltava com meus filhos. Ent\u00e3o faz falta a rede, at\u00e9 os particulares gostavam de fazer excurs\u00e3o, fazer romaria, era mais barato, era mais gostoso, era tranquilo, n\u00e9? Eu tenho saudade. At\u00e9 sinto satisfeito de dar uma entrevista sobre as coisas antigas, eu tenho muita saudade do meu tempo, sempre sobrevivi, nunca fui de arrumar rolo, nunca bebi, foi assim que eu alcancei meus 85 anos de vida. Hoje este povo n\u00e3o alcan\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a href=\"https:\/\/museudaoralidade.org.br\/?p=40\" rel=\"bookmark\" title=\"Link permanente A gente viajava em cima do trem\"><p>Meu nome completo \u00e9 s\u00f3 Jo\u00e3o Geraldo. Eu tenho duas datas, mas a data que minha m\u00e3e me p\u00f4s no mundo \u00e9 13 de julho de 1926, mas no meu documento \u00e9 de primeiro de agosto de 1926. Eu entrei na estrada de ferro dia 15 de agosto de 1946. eu entrei com 20 anos. 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