{"id":108,"date":"2019-08-13T16:11:53","date_gmt":"2019-08-13T19:11:53","guid":{"rendered":"http:\/\/museudaoralidade.org.br\/?p=108"},"modified":"2019-08-13T16:12:01","modified_gmt":"2019-08-13T19:12:01","slug":"108","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/museudaoralidade.org.br\/?p=108","title":{"rendered":"No come\u00e7o foi catando lenha"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/museudaoralidade.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/ademar-magalhaes-foto-paulo-morais-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"467\" class=\"alignnone size-large wp-image-41\" srcset=\"https:\/\/museudaoralidade.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/ademar-magalhaes-foto-paulo-morais.jpg 1024w, https:\/\/museudaoralidade.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/ademar-magalhaes-foto-paulo-morais-300x200.jpg 300w, https:\/\/museudaoralidade.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/ademar-magalhaes-foto-paulo-morais-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/p>\n<p>Meu nome \u00e9 Ademar Magalh\u00e3es Neves, nasci em  23 de novembro de 1923, estou com 88 anos! Eu nasci em Barra Mansa, mas vim pra c\u00e1 com a idade de 7 anos. Eu cheguei crian\u00e7a e entrei logo no grupo escolar Bueno Brand\u00e3o, ali eu fiz o at\u00e9  quarto ano s\u00f3, n\u00e3o tinha recurso de estudar.<\/p>\n<p>Entrei na rede catando lenha, no come\u00e7o foi catando lenha, os fazendeiros cortavam a lenha e punham na estrada e vendiam para a ferrovia, e n\u00f3s era uma turma de trabalhava no lastro. Saiam seis na m\u00e1quina a vapor chegava no local, nas fazendas, e carregava a lenha na beira da linha. Hoje nem cortar uma \u00e1rvore a gente n\u00e3o pode. Naquele tempo chegava a fazer estoque de 100 mil metros de lenha para as locomotivas a vapor.  Depois de trabalhar dois anos neste lastro particular e que sa\u00ed efetivo na rede e entrei direto no torno, n\u00e3o sabia nada, mas o chefe mandou, e de fato que peguei logo, o pessoal admirava a forma como eu trabalhava l\u00e1, fazia render o servi\u00e7o. O torno fazia tudo quanto era pe\u00e7a. Parafuso, rosca, pinos. Torneava aro de roda, roda,  at\u00e9 isto torneava.<\/p>\n<p>A locomotiva a vapor dava muito trabalho, muito servi\u00e7o pra gente. Chegava para reparar a gente desmontava ela todinha, tirava as rodas. Eu que torneava as pe\u00e7as das locomotivas que desmontavam, os art\u00edfices levavam pra gente. Eu trabalhei neste dep\u00f3sito, eu passo ali at\u00e9 me corta o cora\u00e7\u00e3o hoje. Ficar 36 anos ali, e ver o estado que t\u00e1 l\u00e1, o abandono. Corta o cora\u00e7\u00e3o da gente.<\/p>\n<p>De fato que o povo vinha fazer a mocidade, namorar e andar era aqui na esta\u00e7\u00e3o, nesta plataforma, depois passaram a cobrar acho que 300 reis para entrar na ali, mas ferrovi\u00e1rio n\u00e3o pagava n\u00e3o, s\u00f3 os outros. \u00c8 fazia a avenida ai, e era um movimento, nesta plataforma todinha ficava gente pra l\u00e1 e pra c\u00e1. Era at\u00e9 divertido, a gente ganhava pouco mas era divertido. E a tranquilidade que tinha, hoje n\u00e3o tem mais tranquilidade.<\/p>\n<p>Na esta\u00e7\u00e3o tinha um jornaleiro, chamava se Arthuzinho, coitado, acho que ele tinha artrose como eu tenho hoje. Ele andava um pouquinho e parava. Ele era o jornaleiro que andava no trem. Ele vendia dentro do trem. O trem ia da daqui at\u00e9 Cruzeiro a\u00ed ele voltava e o trem seguia. Outro dia ele pegava o trem at\u00e9 Varginha, era assim, vivia nos trens. Vendia estas revistas do tempo, jornal, revista.<\/p>\n<p>Vou contar de um maquinista, Orosindo que ele chamava, mas chamavam ele de Rosendo,  ele andava bem arrumado,  de guarda p\u00f3, com um rel\u00f3gio e uma corrente atravessada assim no palet\u00f3, ele parecia um doutor.  Perguntavam para ele: &#8211; o seu Rosendo, quantas horas? &#8211; T\u00e1 comendo! N\u00e3o sabia nem olhar as horas e fazia os hor\u00e1rios dos trens, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, pela bra\u00e7agem. Bra\u00e7agem \u00e9 o que toca o trem. Ele olhava e fazia o hor\u00e1rio certinho. Tem certas coisas que a gente nunca esquece.<\/p>\n<p>Mas gra\u00e7as a Deus, trabalhei 36 anos e n\u00e3o deixei um inimigo, sai de cabe\u00e7a erguida e cheguei a comandar. Neste caso eu fui chefe de turma porque eu tava substituindo o chefe, que adoeceu e saiu.  Eu toda a vida eu elogiei a ferrovia, vivi ali, criei 2 filhas, tenho minha casa pr\u00f3pria, arrumei uma pra filha tamb\u00e9m, e  n\u00e3o tenho nada que reclamar, s\u00f3 tenho que agradecer a ferrovia. Pra mim, se eu pudesse, estaria trabalhando at\u00e9 hoje.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a href=\"https:\/\/museudaoralidade.org.br\/?p=108\" rel=\"bookmark\" title=\"Link permanente No come\u00e7o foi catando lenha\"><p>Meu nome \u00e9 Ademar Magalh\u00e3es Neves, nasci em 23 de novembro de 1923, estou com 88 anos! Eu nasci em Barra Mansa, mas vim pra c\u00e1 com a idade de 7 anos. 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