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	<title>Museu da Oralidade</title>
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	<description>Em cada lugar, uma história pra contar</description>
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		<title>Toda a família era de ferroviário</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Sep 2011 19:40:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Morais</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rede Ferroviária]]></category>
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		<category><![CDATA[rede ferroviária]]></category>
		<category><![CDATA[Três Corações]]></category>

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		<description><![CDATA[Qual o nome completo do senhor e a data de nascimento? Meu nome completo é Antônio Tibúrcio de Oliveira, eu nasci em 14 do 4 de 1934, em Conceição da Barra de Minas. Fica próximo de São João del-Rei. Na época era arraial, pertencia ao município de São João del-Rei, depois tornou-se cidade. Eu vim [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_558" class="wp-caption aligncenter" style="width: 504px"><a href="http://museudaoralidade.org.br/wp-content/uploads/2011/09/IMG_9805.jpg"><img class="size-large wp-image-558" title="Antônio Tibúrcio" src="http://museudaoralidade.org.br/wp-content/uploads/2011/09/IMG_9805-494x329.jpg" alt="Antônio Tibúrcio" width="494" height="329" /></a>
<p class="wp-caption-text">Antônio Tibúrcio de Oliveira</p>
</div>
<p><strong>Qual o nome completo do senhor e a data de nascimento?</strong></p>
<p>Meu nome completo é Antônio Tibúrcio de Oliveira, eu nasci em 14 do 4 de 1934, em Conceição da Barra de Minas. Fica próximo de São João del-Rei. Na época era arraial, pertencia ao município de São João del-Rei, depois tornou-se cidade. Eu vim pra aqui, pro sul de Minas, com oito anos de idade. Meu pai foi transferido pra cá, nós fomos pra Gaspar Lopes, próximo de Alfenas, e moramos lá cerca de nove meses. Depois viemos pra cá, meu pai foi transferido, e terminamos a nossa carreira de ferroviário aqui. Meu pai era ferroviário também, trabalhou aqui sempre, aposentou aqui e quatro filhos também dele, três irmãos meus, nós 4 fomos ferroviários. Eu aposentei em 1983, 1º de novembro de 1983.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>O pai do senhor, o que ele fazia?</strong></p>
<p>Ele era mestre de linha, supervisionava a manutenção da via permanente, via permanente é a linha férrea. Ele era supervisor de trecho, e já mais de idade, já no final do trabalho dele, ele ficou como chefe de obras da residência aqui. Tinha um chefe de obras da residência aqui, então ele aposentou nesta função. O nome dele é José Francisco de Oliveira.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Em Conceição da Barra tinha estação?</strong></p>
<p>A cidade mesmo de Conceição fica a seis quilômetros da estação. A estação chama João Pinheiro. Lá era a chamada bitolinha, era a bitola estreita. O meu avô também foi ferroviário, também ajudou construir a <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">ferrovia</a> lá na época. Isto é interessante: tudo em carroça, foi cavando o barranco, tudo a mão, o leito da <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">ferrovia</a>. Ele contava que foi feito, que tirava a terra tudo na carroça, trabalho a mão, tudo manual, trabalho penoso, antigo. O meu avô foi ferroviário desde esta época, quando meu pai entrou também, já com 13 anos de idade. O nome do meu avô é Felipe de Oliveira. Meu avô, eu ainda lembro dele, era português. A família é praticamente toda de ferroviário.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>O senhor entrou para <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">ferrovia</a> com quantos anos?</strong></p>
<p>Eu já entrei com mais idade, eu ia para o exército, mas não fui, entrei com 18 anos. Fiquei na rede como praticante de telégrafo e depois passei a ser empregado. Em seguida, praticamente com 18, 19 anos, iniciei na Rede Ferroviária. Trabalhei 34 anos na ferrovia. Trabalhei no telegrafismo, depois passei a supervisionar o serviço de telegrafia, do telégrafo sem fios e telefone. Tinha a turma, eu chefiava a turma de telégrafos e telefones, as chamadas linhas físicas de comunicações da rede, que tinha na época. Eu era o chefe de turma, era o encarregado.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Qual é a lembrança de quando o senhor chegou em <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Três Corações</a>, aos 8 anos?</strong></p>
<p>É, eu tava com 8 anos, foi em 1942. Eu lembro pouco, a estação é a mesma de hoje. Muito movimento, muito trem. Tinha a locomotiva a vapor, vários dias, dia e noite tinha tráfico, tinha muito pouco trânsito em rodovia, ou quase não existia rodovia. Transporte era feito mais por ferrovia, então o movimento era quase todo feito por ferrovia. Era um movimento intenso de trem na cidade, e durante vários tempos, durante a minha juventude e mesmo depois, quando eu entrei na rede, o movimento era grande, o transporte de abastecimento de alimentos na cidade vinha tudo por ferrovia. Como conferente eu recebia os grandes armazéns que tinha na época aí, de atacado, secos e molhados. Eles recebiam vagões fechados de mercadoria: arroz, açúcar, e outros alimentos. Da estação, era tirado por carroça, então lembro até do avô do Pereira, ele era carroceiro, ele puxava os alimentos na rede. Isto aí foi lá por 1951,1952. Eu entrei em 1951 na rede.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Quanto tempo levava de Conceição da Barra até aqui?</strong></p>
<p>Isto era problemático, porque tinha que pernoitar em Lavras, porque não tinha o trem da bitolinha. Aí vinha até Ribeirão Vermelho, o carro vinha a Lavras, aí tinha que pernoitar, aí vinha outro carro pra lá. A gente gastava praticamente dois dias, e não tinha assim comunicação direta. A bitolinha era 75 centímetros, ela ia de São João del Rey, lá perto de Juiz de Fora, Barroso, ia até Ribeirão Vermelho e Divinópolis. Então era uma ferrovia que foi construída pra lá, de 0,75. De Ribeirão para cá, já tinha outra , a bitola métrica, que passava por aqui, via Garças, e ia até Belo Horizonte. Daqui os passageiros iam de dormitório, que dava volta, passava Formiga, Campo Belo, ia a Garças, depois Divinópolis e Belo Horizonte. Outro trecho cortava pro lado de São João, passava em Ribeirão Vermelho e ia pra Divinópolis também, só na bitolinha. Hoje eles encurtaram, quando acabou a bitolinha, eles fizeram a bitola métrica, passando aqui por Lavras, passando por Divinópolis, não passando por Garças, encurtando, não dando a volta. Garças já ficava para o sentido de Uberaba, então ultimamente, quando tinhas os trens aí, já passavam por aqui, iam para Oliveira, saía em Divinópolis, e ia pra Belo Horizonte, encurtou bastante o tempo de viagem.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Como que entrava na rede?</strong></p>
<p>Era simples. Pra função de escritório, conferente, umas carreiras onde exigia escrita, fazia prova, concurso, depois exame médico. Agora na via permanente era mais fácil. O pessoal vinha, não exigia escolaridade, nem nada. Tinhas muitos analfabetos, por isto, não exigia escolaridade, porque era só serviço braçal. O mestre de linha mesmo encaminhava uma carta para o médico, fazia o exame e passava a trabalhar, aí mandava a documentação pra Belo Horizonte, no escritório central, mas aí já tava trabalhando.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Tinha alguém dentro da rede que ficava de tutor, pra só treinar o pessoal que entrava?</strong></p>
<p>Não, nesta época não, a praxe era esta. Apresentava o candidato, que fosse para concurso, tinha indicação, fazia o concurso, os aprovados iam a Belo Horizonte para exame médico, depois eram chamados depois para tomar posse, tomavam posse em BH e exercia o cargo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Como a cidade recebia o ferroviário?</strong></p>
<p>Na época que eu vim para cá, existia uma certa animosidade entre o pessoal do ferroviário e a população de um modo geral, uma certa rixa. Por muito tempo houve isto aí. O ferroviário era uma classe mais ou menos considerada classe inferior, classe baixa, embora fosse através da ferrovia que o progresso da cidade veio. O próprio dom Pedro fez o trecho inaugural de Cruzeiro a TC, andou inaugurando esta linha férrea aí, daí desenvolveu a ferrovia e a cidade. A cidade era um pólo mais agropecuário aqui em <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Três Corações</a>. No centro, fazia comércio de gado e tudo. Teve a necessidade da implantação da ferrovia, com isto veio o progresso para a cidade, a cidade se desenvolveu mais, e depois prosseguiu pra Varginha, desenvolveu também, e participou do desenvolvimento pra Varginha também. Então a ferrovia faz parte do desenvolvimento da cidade. Em 1854 foi inaugurado aqui, dom Pedro fez a viagem inaugural, de Passa Quatro, que tinha um túnel até <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Três Corações</a>.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Este bairro da Cotia era de ferroviários?</strong></p>
<p>Não, isto aqui era uma rua, você tinha uma rua só, o pessoal mais antigo pode até lembrar disso. Era uma rua que tinha prosseguimento, morava mais ferroviário aqui porque concentrava, do depósito da tração, tinha vários empregados, na estação, tinha bastante empregado também, tinha a cooperativa, e tinha também as residências de engenheiro, tinha uma aqui em frente a rodoviária, tinha uma casa de engenheiro ali, e tinha outra de cá, depois mais tarde construíram esta aqui em cima que era de engenheiro também. Então ficou mais ou menos concentrado, os ferroviários ficou mais ou menos concentrado na região aqui. Depois expandiu pro Triângulo, também tinha bastante ferroviário, mas mais na Cotia mesmo, por causa da proximidade e localização do núcleo ferroviário, depósito, estação. Era tudo aqui, centralizado aqui próximo aqui do bairro. Então o bairro ficou mais povoado pelos ferroviários.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Como era a questão de amizade entre os ferroviários?</strong></p>
<p>Era um ambiente, entre os ferroviários, mais unido, havia união, inclusive na área dos esportes sempre houve destaque para os ferrroviários. Na minha época eu até jogava futebol também, na Mendel e Cia aqui tinha 4 times só de ferroviários, a gente fazia até campeonato entre ferroviários. A gente fazia disputa, conseguia quatro até cinco times, separando escritório, via permanente, estação, tráfico e outros diversos, chagava a fazer campeonato, tinha muita gente. Alguns jogadores do Ferroviário participaram do Clube Atlético da cidade, antes tinha o Flamengo também , o América, os times da cidade de épocas passadas e os ferroviários jogaram também , alguns jogaram lá, neste times da cidade. Já havia mais entrosamento com o povo da cidade. Aqui os que destacaram foi Joviote de Noronha, era conhecido, Juvenal este juiz lá do Supremo, do STJ, o Agripino Nascimento era chefe de estação muito tempo, outros que jogaram no Atlético, Mizuta, é o pai do José Edson, este gerente aí na Caixa Econômica Federal, é gerente de serviços, mexe com música aí na cidade. Bomba, foi da família, ligada a família do Antônio Musa, seu Musa. Outros jogadores, Abraão Belchior, da família Belchior Gonçalves, o sobrinho dele também foi destaque, o Marco Aurélio era funcionário da prefeitura, morreu de acidente na ponte aqui perto da ponte da Mangels. Outros mais, vale destacar o time do Dondinho, o pai do Pelé, participava também, o Zezinho é cunhado do pai do Pelé. O Dondinho era militar, Zezinho, era militar, era família militar. Na época uniu tudo aí, jogava o Fuad Amadeu, depois foi transferido como atleta semi profissional pra Cruzeiro. Lá tinha um frigorífico, tinha muito movimento na cidade de São Paulo, foram para lá.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Tinha bailes?</strong></p>
<p>Baile, tinha, depois que nós fundamos o Canto do Rio, era time do ferroviário. Ele nasceu aqui na Cotia, lá na beira do rio lá embaixo, chamava Canto do Rio, ele nasceu lá, com Jorge Chediak, já faleceu, Daniel Amadeu. Ele foi fundado em 52, depois conseguiu um terreno ali na beira do rio. Era terreno da rede, conseguiu autorização lá em construiu o campo lá e ficou. Hoje ele é dirigido por não ferroviário, por particular, porque hoje quase que não tem mais ferroviário, só os antigos aposentados, não fazem parte mais da diretoria.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>O senhor aposentou com qual cargo na ferrovia?</strong></p>
<p>Eu na época era chefe de turno de telégrafo, comunicações. Eu aposentei em 1983. A rede já estava caminhando para a mudança, para a privatização. Espalhava a notícia, supressão de trechos, quando eu fiscalizava aqui as comunicações, os trechos iam de Cruzeiro até Ituiuti, era longe para baixo seguindo Varginha, ia lá na Mogiana, indo sentido Poços de Caldas, lá em baixo, passava Muzambinho, então o entroncamento com a Mogiana era Ituiuti, quando fechou chamava-se Jureia, mudaram o nome, depois ia o ramal de Machado, ia até Machado, antes um pouco tinha o ramal de Três Pontas, ia até Três Pontas. Nesta linha para cá, ia até São Gonçalo do Sapucaí, passando aqui em Cambuquira, Lambari, ia até São Gonçalo, caía em outro trecho, em Soledade, ia até Sapucaí, entrocamento com a Mogiana, lá no estado de São Paulo, e Cruzeiro ia até o entrocamento com a Central do Brasil, no trecho Rio-São Paulo, por ali . Ainda tinha o trecho de Caxambu, que ia até Barra do Piraí, lá no Rio, e aqui a Lavras, então pertencia tudo a administração aqui, sediado em Três Corações o escritório central , chamava-se 3ª Divisão, nesta época. Depois foi fechando, o trecho de Varginha aqui para baixo fechou, na ocasião da construção da usina de Furnas, inundou o trecho, foi fechado. Depois de São Gonçalo, ficou até Campanha, posteriormente fechou de Campanha até Soledade, depois fechou a linha de Caxambu que ia até Barra do Piraí, fechou Três Pontas, fechou Machado, e ficou só o trecho de Varginha até Cruzeiro. Depois o tráfico de trem de passageiro acabou também, o trecho daqui houve supressão e ficou até hoje o trecho de Varginha, até Lavras, de Divinópolis até Belo Horizonte, este trecho aqui só com transporte de carga. Agora tá parado, não tem carga, faz uns dois meses que não tem trem aqui, segundo falam por aí, só em agosto. Parece que tem contrato de transporte, só em agosto que eles vão ter carga para transportar. Aqui liga até Varginha, onde tem o tráfico, tem a via e funciona, ainda daqui vai até Belo Horizonte, passando por aqui perto de Lavras, passando por Prudente, Engenheiro Behring, cortando vai até Divinópolis, e vai até Belo Horizonte. De Belo Horizonte tem outro trecho BH-Betim passando via Garças, vai a Uberaba.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Quando fechou aqui?</strong></p>
<p>Foi mais ou menos na época de 1998, quando fechou, ficando na mão da privatização, esta FCA, Ferrovia Centro Atlântica. Chegou alguns a falar aí que era contra, mas ninguém protestou não, porque já era decisão tomada pelo governo, de privatizar tudo. Foi feito por decreto, não teve como segurar isto, embora a gente sabia que não como ferroviário, mas como cidadão, num país com dimensões continentais, a ferrovia é o meio mais útil de transporte, isto é assim no mundo inteiro, haja visto na Europa.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Quando a associação dos ferroviários foi fundada?</strong></p>
<p>Já existia uma associação aqui. Foi o Pedro Dias que fundou, era um ferroviário antigo que veio para Três Corações e aposentou aqui também. Ele até chegou a ser delegado na cidade uma vez, eu conhecia ele e tudo. Ele fundou uma associação, ela funcionou sediada ali onde era o Banco da Lavoura, em frente o jardim, ali na praça onde hoje parece que é um banco popular. Fechou depois e a associação foi para o Sandu, na Oleriano Martins de Andrade. Ali tinha uma sala e funcionava junto lá do Sandu, depois desapareceu e o início de 80, mais assim, 81, 82, 83 até 85 houve uma debandada de ferroviário aposentando. A ferrovia esperou, porque a rede, para acertar o quadro de Fundo de Garantia, o governo passou a oferecer 6 meses de salário extra para quem aposentasse. Então ele dava seis meses de salário extra, salário duplo, no caso, pra quem quisesse aposentar, pra ficar livre da sigla de funcionário público e entrar no regime de fundo de garantia. Então nesta época, encadeou um número enorme de aposentadoria.</p>
<p>Então, nós em 88 resolvemos, com vários aposentados, era um grande número&#8230; a gente estava sem informações, e pra gente manter o pessoal informado, tratar dos direitos, fazer os pedidos, encaminhar papéis, na época tinha um problema com as companhias de seguro de vida. Nós fundamos esta associação, e me escolheram como presidente, e tô até hoje como presidente, porque ninguém mais quis assumir. Já passou o mandato que eu tinha que cumprir, fui reeleito, tinha que passar pra outro, aí não apareceu candidato, foi atropelando o estatuto e tô até hoje.</p>
<p>Por incrível que pareça, não existe estatuto, não tem secretário, e fico eu aqui na frente, o rapaz que cuida da tesouraria. Tem uns aí que dá uma mãozinha de ajuda, tem outros que fazem limpeza pra gente aqui no prédio, e estamos até o dia que der. A vontade é fechar também, tá batendo o desânimo.</p>
<p>Muitos faleceram, a gente tem até a lista aqui, a chamada lista negra, dos aposentados que vão falecendo, e teve uma época pra cá começamos a montar uma listinha, tem 284 anotados falecidos. Hoje tem poucos ferroviários, deve ter aí cerca de mais ou menos 150, 160 ferroviários aposentados, mais umas talvez 150 pensionistas. Estes que fazem parte aqui na associação, a associação é de aposentados e pensionistas. A gente tem uma contribuição deles, mas é ínfima, é de dois reais por aposentado e um real a pensionista, para manutenção, despesa de telefone, água, luz.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Era raro mulher na ferrovia?</strong></p>
<p>Tinha pouco, era mais no escritório, tinham função de escriturária, então era só serviço de escrita. Era um número, tinha um monte de gente só no escritório central, em Belo Horizonte, lá a maioria era mulher. Era muita gente, mas no interior só o número suficiente para o serviço de escrita, na época mais antiga era tudo feito a mão, manuscrito.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Quando fundou a associação tinha quantos membros?</strong></p>
<p>Nós tínhamos de 400 a 500 participantes, e a gente incluía o pessoal de Varginha, pessoal de Soledade e Passa Quatro. Nós tinha aí de 500, quase 600 incluindo o pessoal das outras cidades, Baependi, Conceição do Rio Verde, fazia parte aqui também, depois eles foram deixando, ficou difícil para eles, aí restringiu ao pessoal daqui de Três Corações. Já teve um movimento maior, o pessoal às vezes quer uma informação, algum interesse, algum dado de algum ferroviário antigo, precisa às vezes de um papel para entrar na justiça, então vem aqui e a gente aqui tendo disponibilidade a gente passa para o pessoal.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Como o senhor vê o abandono da ferrovia?</strong></p>
<p>A gente que é ferroviário vê isto com tristeza. Eu falei como cidadão, agora como ferroviário, a gente vê com tristeza porque a gente batalhou muito. Tudo isto aí a gente lutou, dava a vida por isto aí, fazia com afinco todo o trabalho da gente, todo ferroviário tinha disposição para trabalhar, embora muitos tinham dificuldade de trabalho. E a gente vê com tristeza o esforço que nós fizemos.</p>
<p>Aqui no caso meu teve um trabalho de reforma de Varginha até Cruzeiro, porque as linhas telegráficas foram construídas por ingleses e era material inglês, era um material bom, fio de ferro, revestido de aço, só que era muito dificil de trabalhar. Aquilo, com o tempo, ia enferrujado, ia atrapalhando a comunicação, tinha que trocar por cobre primeiro, depois alumínio, por um material mais prático de ser utilizado, mais leve. Nós fizemos este trabalho todo, percorrendo tudo a pé, eram 190, 200 quilômetros de Varginha a Cruzeiro. Fizemos o trabalho com afinco, de repente a gente vê isto tudo abandonado, o povo roubou a fiação tudo, os postes tudo roubado, roubando os trilhos. A gente sente e vê o desprezo que o governo deu e continua dando à ferrovia. Tem valor nenhum, então a gente se sente atingido, este desprezo com a ferrovia e agora também com os ferroviários, nós estamos também numa situação de abandono, o nosso plano de cargo não está valendo mais nada, o governo não reajusta. Tirou a gente do Ministério do Transporte e pôs no Ministério do Planejamento, jogado lá canto, sem quadro, sem direito, ninguém reclama, ninguém pode reclamar, ninguém faz nada.</p>
<p>E estamos aí, com o salário defasado, numa situação crítica porque abandonado não só lá na ferrovia, quanto os próprios ferroviários não tem ninguém para a defesa. Embora existam sindicatos, confederação, federação dos ferroviários, mas não tem força. A gente fica triste, embora tenha este mérito de estar a frente da associação, foi reconhecido o valor da gente na ferrovia, mas o governo abandonou tudo, nossa ferrovia e os ferroviários.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>O senhor tem esperança de um dia a ferrovia voltar?</strong></p>
<p>Talvez seja viável fazer o trem-bala e a gente pode acreditar, por causa das Olímpíadas e pela Copa do Mundo, vai aparecer este trem-bala em função disto. Ele sai, mas investimento privado, porque governo eu não acredito em nada. Os governos deixar morrer tudo que tava feito, e deixar morrer no abandono&#8230; Há pouco tempo saiu uma entrevista aqui em São Paulo mostrando o abandono das ferrovias, tudo sucateado, os vagões, as locomotivas, o povo roubando o material, abrigo de vândalos, a gente vê isto tudo aí com tristeza, não dá pra acreditar no governo, é difícil acontecer que a gente possa reafirmar isto tudo.</p>
<p>Tomara que possa sair este trem-bala pra trazer um novo alento. Pelo menos o trem bala vai melhorar bem o conceito de ferrovia no país. Se tivessem investido um pouco mais, tava aí até hoje, o país precisa do transporte ferroviário, para o transporte de cargas pesadas, as rodovias acaba mais é por transportar carga pesada, carga que podia estar sendo transportada pela ferrovia ao invés de transporte rodoviário. Se houvesse investimentos na ferrovia, devia revitalizar, falo em revitalizar, mas pego um trechinho de interesse político, de 10 km, 4 km, igual de Soledade a São Lourenço, Passa Quatro tem um trechinho de 4km, de interesse político do José Dirceu, porque ele nasceu em Passa Quatro, pediu e o governo Lula mandou fazer um trechinho lá pra agradar o povo. Ali ficou aquele trechinho, mas fora isto, ficou o resto tudo abandonado. Então é triste isto, não dá para ter esperança de melhorar a ferrovia no Brasil, fica difícil.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>O senhor gostaria de deixar uma mensagem?</strong></p>
<p>O que eu deixaria de mensagem final é que a gente tem que lamentar viver nesta situação de desprezo pela ferrovia no país, trechos erradicados, muitos desnecessariamente. O governo preferiu erradicar os trechos ao invés de melhorar, deixou acabar. A gente lamenta muito, a gente tem que lamentar, como ferroviário desejaria que houvesse alguém entre os governantes que pudesse voltar a dar sentido para a ferrovia, porque o país é de dimensões continentais e o meio de transporte mais adequado é a ferrovia, não só para transporte de cargas pesadas, aliviando as rodovias, diminuindo os acidentes. A gente sabe que tudo isto é consequência, e voltaria o País a ter um meio de transporte que no passado foi muito útil para o desenvolvimento do Brasil. Desejo que haja uma mente que seja clareada para que possa voltar os olhos e as ações para ferrovia, tão necessária para o País.</p>
<p>Eu autorizo sim , tudo que eu falei é expressão da verdade, é a realidade nacional, todo mundo sabe disto, não falei nada de mais, é o que eu sinto como ferroviário e como cidadão também. Por isto não tem problema nenhum.</p>
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		<title>Tô vivendo com a graça de Deus</title>
		<link>http://museudaoralidade.org.br/blog/2011/09/to-vivendo-com-a-graca-de-deus/</link>
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		<pubDate>Mon, 05 Sep 2011 21:06:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Morais</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rede Ferroviária]]></category>
		<category><![CDATA[Casa dos dois leões]]></category>
		<category><![CDATA[Cotia]]></category>
		<category><![CDATA[Lavras]]></category>
		<category><![CDATA[rede ferroviária]]></category>
		<category><![CDATA[Três Corações]]></category>

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		<description><![CDATA[Qual o seu nome completo e, se a senhora não se importar, a data de seu nascimento? Minha data de nascimento é 16 do 7 de 1926, vou fazer 85 anos. Eu tenho que fechar o olho para escutar melhor, é mania de velho, não tem jeito. Depoimento Wanda Gomes A senhora nasceu aqui em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_544" class="wp-caption aligncenter" style="width: 504px"><a href="http://museudaoralidade.org.br/wp-content/uploads/2011/09/IMG_0015.jpg"><img class="size-large wp-image-544" title="Wanda Gomes" src="http://museudaoralidade.org.br/wp-content/uploads/2011/09/IMG_0015-494x329.jpg" alt="" width="494" height="329" /></a>
<p class="wp-caption-text">Wanda Gomes, Ferroviária</p>
</div>
<p><strong>Qual o seu nome completo e, se a senhora não se importar, a data de seu nascimento?</strong></p>
<p>Minha data de nascimento é 16 do 7 de 1926, vou fazer 85 anos. Eu tenho que fechar o olho para escutar melhor, é mania de velho, não tem jeito.</p>
<p><a href="http://museudaoralidade.org.br/wp-content/uploads/2011/09/depo-wanda.mp3">Depoimento Wanda Gomes</a></p>
<p><strong>A senhora nasceu aqui em <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Três Corações</a>?</strong></p>
<p>Nasci aqui mesmo, estudei aqui e depois me formei em <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Lavras</a>, no Colégio Gammon, fui pra lá com 14 anos e voltei com 18.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Onde a senhora nasceu aqui, a senhora tem a lembrança da casa, da rua que a senhora nasceu?</strong></p>
<p>Nasci na rua onde hoje é Cabo Benedito Alves, o número não lembro mais, numa casa ao lado de uma pensão que era do meu bisavô, Cândido Passos Simas. A lembrança que eu tenho é que lá tinha três quartos, uma sala central, a cozinha e um banheiro do lado da cozinha e escada pro quintal. A rua não era asfaltada e nem calçada, era de chão duro, era muita poeira, a gente vivia com a casa empoeirada, a gente sempre limpando, e assim foi levando a vida por uns tempos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Quais eram as lembranças de infância? Quais eram as brincadeiras?</strong></p>
<p>As brincadeiras eram com as vizinhas, que tinham quase a mesma idade que eu. Jogava bola, depois às nove horas, era tudo em casa. Dava nove horas, a gente era mocinha, tinha que ir pra dentro, aí já ficava a rua deserta. As crianças é que alegravam aquele pedaço da <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Cotia</a>, ficava gritando, brincando, correndo, e assim passou o tempo. Aí eu fui pro colégio, com 14 anos, lá fiquei interna, estudando, fiquei cinco anos lá e me formei em Comércio. Cheguei aqui e entrei pra rede. Entrei em 45. E trabalhei até aposentar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Como a senhora entrou na rede?</strong></p>
<p>Eu fiz um concurso e passei. O concurso parece que foi em 44 e eu entrei em 45. A vaga era pra expediente geral, estação, movimento de pagamento. Eu trabalhei muito tempo pagando as despesas de luz, de água, das estações seguidas. Depois eu passei a trabalhar na parte comercial. Que era pagamento de luz de todas as estações, pagamento de despesas em geral e apresentava um balancete pra Belo Horizonte. Nisto eu trabalhei muito tempo, até ir pro protocolo. Depois no protocolo eu trabalhei muito e foi passando os anos. O protocolo é a história de cada funcionário, às vezes alguma irregularidade a gente registrava ali. Cada grupo tinha um número, por exemplo: pra funcionário, pra despesa, pra outras coisas mais, pra construções de certas coisas que tinha que fazer. Era dividida em grupos até décimo segundo. Todo fim de mês, tinha que fazer o balancete e mandar para Belo Horizonte, e tinha que ser aprovado, e era aprovado. Nunca veio um balancete meu sem ser aprovado, todos eram aprovados. Eu tive este trabalho e tava tudo certo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Eu trabalhava no escritório geral. Cada escritório tinha uma função de trabalho. Eu trabalhava aqui em cima na rede, onde hoje é clínica da prefeitura. A rede acabou e foi entregue à prefeitura. Vários imóveis que eram da rede foram entregue para a prefeitura. Foi a prefeitura que deu continuidade nestes prédios. Foram vendidas várias casas, e a rede acabou nisto que tá hoje: não tem mais nada.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Quem eram seus colegas de trabalho?</strong></p>
<p>Tinha a Nedina Marques, que era protocolista, eu trabalhava com ela. Além da Nedina, tinha a Nazinha Resk, ela recebia os documentos que vinham de outras estações, dava recibo e mandava distribuir pelos grupos de acordo com o assunto. Era um serviço muito organizado, que não tinha meio de errar, quando errava já era percebido no hora, já corrigia e fazia de acordo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Quem era seu chefe?</strong></p>
<p>Neste tempo eu tive dois chefes. Teve um que chamava&#8230; espera aí me esqueci o nome dele. Tinha assim muita substituição, por licença, por tempo de serviço. Durante muito tempo eu pertenci à classe do administrador do escritório que chamava Sebastião Pena, ele ficou até aposentar. Teve seu Geraldo Mendes, que também foi meu chefe de escritório. Depois teve outros que foi substituição por pouco tempo que não vale registrar aí. Depois veio o Seu Pena, que ficou durante muito tempo até aposentar. Ele que administrava a situação, o movimento do serviço, vendo se a gente não tava atrasando nada, fazendo tudo certinho, apresentando na época certa. E assim foi indo&#8230;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>A senhora casou?</strong></p>
<p>Eu cheguei a casar com um telegrafista, mas ele logo saiu e foi trabalhar no banco, ele fez carreira como gerente, e nesta época foi que ele morreu, com 49 anos, de enfarto. O nome dele era Venâncio Alacrino Gomes. Ele foi um bom funcionário, administrou bem a carreira dele, fez carreira no banco e do banco ele chegou a gerente. E eu fiquei viúva já tem mais de 30 anos, ele morreu em 72, nos estamos em 2011.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>A senhora teve quantos filhos?</strong></p>
<p>Eu tive 5 filhos. Quando tava perto do parto e gente ia ao médico e ele dava uma declaração que tava perto do parto. A nossa licença era de quatro meses, eu ficava em casa e ali neste período nascia a criança, e quando vencia estes quatro meses eu voltava para trabalhar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Algum parente da senhora trabalhou na rede?</strong></p>
<p>Meu pais também foram ferroviários quer dizer, minha mãe não, mas meu pai foi ferroviário. Ele trabalhava nesta seção de relógios, consertos de relógios, consertos de balança. Meu pai chamava José Alves Mafra. Agora eu não lembro a época em que ele faleceu, ele chegou aposentar na rede, foi vivendo meio doente, até desaparecer do mapa.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>A senhora estudou em <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Lavras</a>, como a senhora ia pra lá?</strong></p>
<p>Eu ia de trem , tinha passe, a gente tinha direito a passe grátis. Eles davam passe pra gente ir no período de aula. A gente apresentava pro condutor aí o condutor liberava e a gente continuava a viagem até o ponto final.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Como era a viagem de trem pra <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Lavras</a>? </strong></p>
<p>Era três horas e meia de viagem pra Lavras, porque Lavras a distância não era tão grande. A gente saía daqui à uma e meia e chegava em Lavras às quatro e meia. Nesta época, também ia muitos outros alunos que eram internos, daqui de Varginha, de lugares vizinhos, cidades vizinhas que estavam no trajeto. A gente encontrava, ai era aquela barulhada dentro do trem, aquela risaiada, e contava a história do que passou durante as férias. E quando chegava lá, achava meio estranho, mas logo a gente habituava outra vez. O Gammom era dividido em três grupos: era ginásio, Kempler, que era das mulheres, e a Esal, que era de agronomia. E aquilo foi vivendo muito tempo. Hoje também acabou, não existe mais este colégio, hoje é do governo, já passou pro governo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Tinha alguma coisa que comercializava dentro dos trens?</strong></p>
<p>Dentro dos trens tinha o restaurante. A gente às vezes queria comer alguma coisa, ia lá e comia. Tava com dinheirinho no bolso, pagava, não tinha problema. Servia leite, toddy, bolachas, pão, pão torrado. A gente queria um chocolate com pão torrado, vinha. Dentro do trem era mais café do que refeição. Tinha alguns lugares que tinha refeição, parece que Perdões, Ribeirão Vermelho. Tarde da noite, serviam chocolate quentinho, no tempo do frio.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Tinha vagão leito?</strong></p>
<p>Tinha, para quem queria e pudesse pagar o leito, pagava separado e tinha um recibo e dizia que ele tinha o direito de usar aquele leito e ficava dormindo até chegar no ponto.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>A senhora tem saudade desta época?</strong></p>
<p>Eu tenho saudade deste tempo, desta juventude, que hoje eu, com esta idade de 85 anos, eu só tenho que pensar em recordar, só vivo de recordação, mas só lembro de ter vivido um período muito bom pra mim, de relacionamento. Foquei mais evoluída e depois fiquei viuva, fiquei cuidando dos filhos, hoje estão todos casados e eu estou com 14 netos casados e oito bisnetos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Quando a senhora se aposentou? </strong></p>
<p>Foi primeiro de novembro, agora não me lembro o ano. Eu estou aposentada já há 30 anos. Meu marido morreu em 72. Ele ia se aposentar do banco e eu também ia aposentar da rede, e íamos estudar em Varginha. Ele ia fazer a carreira de advocacia, ele morreu, não fez. Mas eu fiz, sou formada em advogada mas não exerço. Por questão de saúde eu tive que abandonar, o juiz daqui me aconselhou: “Pra que a senhora vai trabalhar? A senhora já é aposentada, vai continuar trabalhando, gastando suas energias mentais, larga a mão disto, a senhora já tem a sua aposentadoria, larga isto de lado”. E eu tava doente com labirintite e por isto fiquei meia surda. E acontece que eu obedeci os conselhos dele e afastei.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>A senhora inda encontra seus colegas de serviço?</strong></p>
<p>Eu encontro assim, na época de mocidade minha, que a gente trabalhava lá, eu lembro da Ines, Terezinha Ferreira, a Ulda Meireles, que veio a falecer, e foi falecendo um e outro e eu tô aqui até hoje. Tô vivendo com a graça de Deus.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>A senhora veio morar na <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Cotia</a> por causa da ferrovia?</strong></p>
<p>Não, eu sempre morei aqui. Acho que desde que nasci, morei na <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Cotia</a>. Eu morei num lugar mais antigo, que hoje é mais lá pro fim, e depois de dez anos é que eu vim morar na Cabo Benedito Alves, onde eu fui logo com 14 anos pro colégio, voltei com 18 anos, e passei mais dois ou três anos, me casei, e acontece que foi passando minha aposentadoria e estou aí, estou vivendo, a recordação que eu tenho é esta. Recordo das minhas colegas, recordo também da época de trabalho, trabalhei com diversos grupos, diverso pessoal. Trabalhei no financeiro, foi onde aposentei. Porque eu tinha formado e estava habituado a mexer com números, então eu continuei, meus chefes que deixaram continuar no trabalho, e assim foi indo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>A senhora conheceu seu marido no serviço?</strong></p>
<p>Não, porque ele morava aqui perto do meu irmão, que também já é falecido, faleceram mais ou mesmo na mesma idade. Parece que já tinha programado para acabar a vida deles. E acontece que foi mais conhecimento de criança. Quer dizer, me simpatizei com ele e ele comigo, e a gente casou. No meu casamento veio muitas pessoas da rede, que nesta época a gente já tava trabalhando, e foi um aconchego muito bacana. Viajei de lua-de-mel de trem, com passe grátis. Fomos até Aparecida do Norte, depois que entramos no estado de São Paulo, aí já modificou: viajamos de ônibus. E passamos a lua-de-mel por ali, fomos embora, e continuamos a trabalhar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Hoje já estou com depreciação mental e esqueço muito as coisas. Esqueço muito onde ponho as coisas, tenho que estar pedindo pras minhas netas me ajudar, e hoje eu vivo mais na companhia do meu filho mais velho que é o Vander Bertamini Gomes, porque o meu marido era descendente de italianos, e chamava Venâncio Alacrino Gomes. Era o nome do pai, depois que o pai morreu, ele ficou com o nome do pai, depois a mãe, era Mari Bertamini Gomes, do marido, nós continuamos com o mesmo sobrenome, Bertamini Gomes. É o pai da Bianca, ela é muito boazinha, eu gosto muito dela, ela é muito educada, muito fina, muito dócil. A gente vai vivendo com os netos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Onde que era a pensão da sua família?</strong></p>
<p>Era aqui em baixo. Hoje já não existe mais, já desmanchou, foi vendido.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>A pensão funcionava onde? Perto da casa dos dois leões?</strong></p>
<p>Era quase em frente a casa dos dois leões, tem a casa que eu morei, foi a casa do meu avô, meu bisavô, depois passou pro avô, do avô passou para o meu pai, e nós ficamos morando lá até acabar a rede, acabar tudo, ele vendeu e hoje pertence a outras pessoas. Os hóspedes eram viajantes de cavalo, cavaleiros que fazia assim transporte de gado, de animais, e pousava lá, ali chamava pensão da&#8230; Até me esqueci, chamava Pensão Cândido Passos Simas, mas era outro nome&#8230; dos Boiadeiros! Era Pensão do Boiadeiros. Porque vinham as pessoas trazendo os bois de longe, deixava lá no charque e depois continuava a viagem, e voltava lá pro Norte de Minas, onde eles faziam os negócios com os animais, e fazia este transporte até aqui. Pousava aqui e chamava Pensão dos Boiadeiros, porque eles mexiam mais é com boi. Eu não tenho lembranças deles, porque naquela época eu não dava muita atenção, sabia assim por escutar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Teve algum acontecimento que marcou a senhora quando trabalhou na rede? Algum fato engraçado? </strong></p>
<p>Não, isto não tenho não, eu fui muito disciplinada. Levava tudo muito a sério, não lembro de nenhuma brincadeira. Outra coisa que eu me lembro também foi da revolução de 32, eu era menina. Ali tinha a pensão, e eles ficavam ali, tinha os quartos de dois em dois e assim eles ficavam de dois em dois, e eu frequentava ali, pequena. Minha mãe atravessava pra lá, e a gente ia pra lá. E na Revolução de 32 nós ficamos escondidos no porão da pensão, e lá eu fiquei, coisa que eu me lembro que eu era pequena, eu não sei, tem 32 quantos anos eu tinha, devia tá com uns 4 ou 5 anos, por aí. E acontece que eu fui pousar na porão e eles fizeram cama, tudo de acordo lá pra gente evitar das balas que passavam por cima e vinham atingir aqui, que hoje era o 4 RCD, o regimento dos militares. E eles ficavam de lá atirando pra cá e às vezes desviava alguma bala e a gente ficava com medo de ser atingido. Então ficava lá no porão até acabar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Mas aquela revolução foi rápida, parou logo. Eu me lembro que eu dormi lá e e ficava com medo, ficava chorando, querendo ir pra minha casa e falavam: não, não pode ir não, o soldado tá batendo na porta pra esconder, tá querendo abrigo, não vamos lá não, tá tudo fechado. E eu querendo ir embora, tava achando ruim ficar no porão. Foram muitos mortos, muito soldado. Aqui tinha um vale onde soldados morreram, e nessa época da Revolução e eu morava lá rua que hoje é Tenente Lopes. Ele foi militar, quando ele faleceu a rua recebeu o nome dele. Naquela época, quando eu morava lá, a Rua chamava, chamava&#8230;, como é que era? Até já me esqueci, mas era uma rua que tinha um nome que não era muito conhecido, e ali tinha várias vizinhanças que tinha o relacionamento com os vizinhos. E assim fui vivendo, as recordações que eu tenho é isto, e alguma mais que a gente já esqueceu.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Os seus filhos na nasceram no hospital ou de parteira?</strong><br />
Alguns foi com parteira e outros em hospitais, eu lembro do Vander, o primeiro filho foi no hospital, eu comecei a sentir os sintomas do parto e fui pro hospital e ele nasceu, hoje ele está com 62 anos, o meu primeiro filho, depois veio a Vanice e já foi em casa, aqui nesta casa onde eu morei. Foi uma dona chamada Filomena, da família Lorenzo, ela era também descendente de italiano, ela fez 2 partos meus, o da Vanice e da Vanilse, e depois aí parece que ela já não tava mais fazendo o parto, aí foi no hospital. No hospital foi o Vagner e a Vânia, ela é minha caçula, e o Vagner foi o penúltino, ele foi o que morreu novo, com 48 para 49 anos, morreu com uma doença meia perseguida que ele vinha sentindo, ele morreu e chegou a estudar, foi o único que estudou até formar para um curso especializado. Ele era engenheiro civil, ele trabalhou em São Paulo, trabalhou em Monsenhor Paulo, depois veio para cá, já casado com a filhinha, e aqui ele faleceu, faleceu na terra dele. Aqui tem até o retrato dele, ele é até bonitão, deixa eu mostrar o retrato dele! Eu penso nele todo dia, porque ele era um bom filho. Ele teve uma doença que caiu o cabelo, ele teve que fazer quimioterapia, tinha um cabelo bonito ondulado, chamava Vagner Bertamini Gomes. Morreu há quatro anos atrás, ele nasceu dia 21 de outubro e morreu em outubro, foi no ano que ele completou 48 anos que ele faleceu.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>A senhora gostaria de deixar alguma mensagem para alguém, para os ferroviários, para os jovens?</strong></p>
<p>A única mensagem que eu posso dar para a rede é que recordo muito do tempo que eu trabalhei, com os meus funcionários, com meus chefes, e cheguei a administrar trabalho e eu recordo que eu tinha alguma aptidão para isto, mas sempre fui disciplinada, cumpria com meu dever. Era muito assídua, tanto que eu tive dois anos de licença especial, contando 10 anos e mais 10 anos sem falta. E aí a minha aposentadoria foi mais dobrada, foi mais quatro anos, por isto que eu aposentei cedo, eu tava com 40 anos, 42 por aí. Eu aposentei muito nova, e conservei a aposentadoria até aqui, e tô aí com saúde, apesar de já ter uma artrose provocando um desânimo, que eu tenho artrose nas pernas, no joelho, mas eu seu que a única recordação que eu posso ter é dos meus colegas, dos meus chefes. Eu vivia liberta de tudo, de doenças, meus filhos estudaram sem dificuldade, e eu tinha condição, meu marido trabalhava no banco, a gente tinha dois ordenados, administrava bem a nossa vida financeira e de maneira que fui vivendo até estes anos de hoje, tô aí vivendo.</p>
<p>Eu tenho recordação da rede e sempre eu tenho vontade que ela voltasse porque ela serviu muito ao Sul de Minas, com os transporte de materiais, com a própria construção e mesmo assim tinha muitos funcionários do depósito da rede, tinha vários funcionários, cada um com as suas especialidades, era bem organizado.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>O que a senhora achou de lembrar e contar estas histórias para este projeto?</strong></p>
<p>Eu lembro que foi uma experiência de vida pra mim, de administração do meu próprio lar, de organizar minha situação. Eu gostei, eu achei bom recordar o tempo, eu tô falando aqui, mas eu tô pensando, lembrando lá. Eu era assim, na hora do almoço, eu punha os filhos tudo na mesa para alimentar e eu comia com o prato na mão, ordenando: oh, faça isto, faça assim. E depois dali acabava de comer e escovava os dentes, me arrumava e já ia correndo, em cima da hora, andava sempre em cima da hora. Nunca chegava atrasada, sempre na hora certa. Eu tinha empregada, eu tinha condição de pagar para olhar a casa pra mim, chegava em casa e encontrava tudo pronto, mas quando era por na mesa os filhos era eu que tinha que mandar, organizar tudo direitinho, como devia ser.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>O nome da senhora é com V?</strong></p>
<p>Não é W, meu nome na rede sempre foi com W, Wanda Alves Gomes, depois de casada. Eu entrei para rede eu chamava Wanda de Carvalho Alves, eu era da família de Carvalho aqui. Depois que casei ficou Wanda Alves Gomes, conservou o Alves e o Gomes do marido.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Para poder publicar o depoimento da senhora eu preciso de uma autorização da senhora. </strong></p>
<p>Diante da entrevista que eu tive com você eu não tenho objeção nenhuma em pôr isto a público, o que eu falei foi pura verdade, é o que aconteceu, foi uma recordação que eu tive hoje com você a respeito da <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">rede ferroviária</a>, eu sei que foi um tempo muito bem vivido e de experiência. Eu autorizo, pode publicar, eu fico satisfeita que façam uma publicação sobre o tempo de vida na rede.</p>
<p>Eu agradeço o interesse de vocês, isto é sinal que a gente tá vivendo.</p>
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		<title>Na oficina que eu trabalhava tinha muitos empregados</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Sep 2011 19:10:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Morais</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rede Ferroviária]]></category>
		<category><![CDATA[acidentes]]></category>
		<category><![CDATA[exército]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_538" class="wp-caption aligncenter" style="width: 504px"><a href="http://museudaoralidade.org.br/wp-content/uploads/2011/09/josevitor.jpg"><img class="size-large wp-image-538" title="José Vítor Pereira" src="http://museudaoralidade.org.br/wp-content/uploads/2011/09/josevitor-494x329.jpg" alt="" width="494" height="329" /></a>
<p class="wp-caption-text">José Vítor Pereira, ferroviário</p>
</div>
<p><strong>Nome completo do senhor e data de nascimento?</strong></p>
<p>Meu nome é José Vitor Pereira. Eu tenho duas idades, mas eu gosto mais de me identificar pela idade de nascimento, que é 24 do 8 de 1924. Eu nasci na cidade de <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Três Pontas</a>. A lembrança de infância, <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Três Pontas</a> não estava ainda em progresso, era mais estrangeiro que veio pro plantio de café, que veio pra trabalhar em lavoura. Meu pai veio para trabalhar em lavoura. A lembrança que eu tenho é que na parte da manhã eu trabalhava num salão de barbeiro e estudava à tarde. Quando passei de ano pra parte da manhã, eu trabalhava de tarde e de manhã estudava. Foi uma vida muito sofrida porque não tinha progresso, não tinha empregos, então a cidade era bem paradinha.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Qual o nome dos seus pais?</strong></p>
<p>O meu pai, o nome é bem difícil, o meu pai chamava Dercideu Guimarães Pereira e minha mãe, Maria da Glória Pereira. Somos só três filhos e todos os três José.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Como foi seu trabalho de barbeiro?</strong></p>
<p>Eu mesmo que pedi pra ele pra trabalhar, era um serviço só de limpeza, limpar os espelhos, o fregues terminava de cortar o cabelo, passava uma escova para limpar as costas dele, passava uma escova no sapato, então é certo este serviço. A profissão mesmo eu não aprendi.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Quando o senhor veio para <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Três Corações</a>?</strong></p>
<p>Antes de vir pra Três Corações eu vim para <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Varginha</a>, com 11 anos, e sai de lá com 19 anos, e fui trabalhar em Piquete, na ocasião da guerra. Eu morava em Lorena, mas trabalha em Piquete, ia todo dia de trem e voltava. Tinha um trem que levava os operários. Piquete era uma cidade que tinha uma fábrica, a fábrica Presidente Vargas. Era do exército, e essa fábrica fabricava só explosivo para a guerra. Era uma fábrica grande, tinha quase mil operários. E trabalhei lá três anos e seis meses, depois que eu trabalhei lá é que eu vim para Três Corações, que eu entrei na <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">ferrovia</a>. O serviço que eu fazia em Piquete era serviço de explosivo: fabricava pólvora, metralhadora, fuzis.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Mas eu trabalhava na fabricação de dinamites. Era fabricado com nitroglicerina, que era o maior explosivo daquela época. Antes da bomba atômica era tudo nitroglicerina. Então eu trabalhava na fabricação de dinamites, não só encaixotava como fazia aquelas bananas, que põe em rocha para explodir pedra. Sempre dava acidente, eu presenciei umas duas ou três explosões. Saía pra trabalhar e não sabia se voltava. Eu saí de Lorena e de Piquete em 45, casei fiquei uns meses depois vim pra cá. Vim para Três Corações e não voltei mais para <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Varginha</a>.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Por que o senhor veio para <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Três Corações</a>?</strong></p>
<p>Minha mãe morava aqui e ela influenciou muito, pediu para que eu viesse morar aqui. Até foi ela mesmo que encaminhou todos os papéis para eu entrar na <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">ferrovia</a>. Eu vim aqui pra pegar passe pra fazer exame de saúde, que a <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">ferrovia</a> pedia naqueles dias, e foi ela que arrumou pra mim.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Como era <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Três Corações</a> quando o senhor veio morar aqui?</strong></p>
<p>Três Corações naquela época não estava muito em progresso porque Três Corações não tinha fábricas. O emprego que mais se disputava era a ferrovia, que tinha bastante empregados. Inclusive na oficina que eu trabalhava tinha muitos empregados.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Qual o cargo que o senhor exercia na ferrovia quando o senhor entrou?</strong></p>
<p>Olha, em Piquete, quando eu deixei a fabricação de explosivos, eu fui trabalhar na fundição, eu exercia a profissão de fundidor. Quando eu cheguei aqui, não tinha esta vaga poque a fundição aqui era pequena. E o meu chefe disse: “o serviço que tem para você aqui é abastecer locomotivas de carvão, lenha”. Então eu aceitei porque voltar pra Piquete ficava feio. Então não quis voltar, eu aceitei e fui lá embaixo. Entrei num começo bem trabalhoso, debaixo de chuva, debaixo de sol. Era trabalhador contratado depois de um ano é que eu efetivei.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Quem eram seus colegas de trabalho?</strong></p>
<p>Depois que eu deixei este local de trabalho que o chefe me levou para trabalhar dentro da repartição, onde se fazia reparação de locomotivas, dava assistência quando quebrava. Este prédio é um prédio abandonado quando você sobe a rua Cabo Benedito Alves. Está parecendo um cemitério. Tudo ali era oficina, trabalhava bastante gente, locomotiva movimentando o dia inteiro, vindo aqui no Triângulo virar, quando ia fazer uma viagem, tinha que vir de frente, tinha que virar no triângulo. Por isto que este bairro aqui chama Triângulo, por causa da triângulo da ferrovia. Mas aqui a Rua Primeiro de Maio, hoje é centro, mas aqui o costume é chamar de Triângulo, por causa da linha do trem.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Na oficina eu entrei como ajudante de ferreiro e depois assumi a forja, e assumindo a forja eu desenvolvi bem, passei a trabalhar e fazer trabalhos que aparecia e nesta altura, me deram uns cargos mais tarde de acordo com os níveis que eu fui chegando, me deram o cargo de chefe de turma, e como chefe de turma era complementado do meu nível ate o chefe de turma. Passei a ser chefe de turma de caldeiraria.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Que tipo de peças o senhor fazia na fundição?</strong></p>
<p>Fazia peças pra locomotivas, peças que quebravam, molas, braçagem, que fazia aquele movimento das rodas. Fazia muitas peças que quebravam, a gente fazia e reparava a locomotiva aqui mesmo.</p>
<p>Depois eu virei chefe de turma da caldeiraria. Não era bem caldeiraria, tinha outro nome, mas a caldeiraria era fundida neste setor metalúrgico, chefe de turma metalúrgico. E caldeiraria era junto com a metalurgia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Quem era seus colegas mais próximos dentro da oficina?</strong></p>
<p>O Ademar Magalhaẽs Neves e o Djalma era seu irmão. Dentro do setor que eu trabalhava tinha o Valdemar dos Santos, Domingos Borges Carvalho, Alfredo dos Santos, <em>quem mais?</em>, Alcino Cassiano e vários companheiros, muito companheiros, tinha mais de 100 companheiros dentro da oficina.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Qual horário que o senhor fazia de serviço?</strong></p>
<p>Eu fazia das 7 horas da manhã às 4 da tarde, e trabalhava também no setor de <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">acidentes</a>. Quando descarrilhava uma composição, uma locomotiva, ou tombava, então nós deslocava pra ir lá fazer o trabalho de recuperar aquele acidente para que a linha passasse a funcionar normalmente.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Era comum descarrilhar?</strong></p>
<p>Dificilmente passava uma semana sem um acidente porque a linha era fraca, os dormentes não estavam bem reformados, principalmente a madeira apodrecia e não trocava a linha ficava ali não muito segura, então o trem passava e descarrilhava, né? E nos éramos acionados para ir lá.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Como é que colocava uma locomotiva de novo no trilho?</strong></p>
<p>Nós colocávamos através de macacos a braço, não tinha macaco a ar, não tinha macaco a óleo, nada. Então era macaco a braço e era mais demorado o serviço um pouquinho porque era só no braço. Ia tocando e a rosca, ia saindo e subindo a locomotiva. Quando tombava, tinha que destombar, fazia um processo. Na nossa gíria era &#8216;fazer o morto&#8217;, fazer o morto era cavar um buraco no chão, colocava dormentes, punha correntes para ficar bem forte, engatava as correntes na locomotiva e punha a talha, puxava na talha e ia ajudando nos macacos. Certo? Ela ia levantando, levantando&#8230; e costumava também, se ela estivesse longe da linha que ela tombou, fazia uma linha provisória, aí ela tombava naquela linha provisória e nos engatávamos mais na frente e ligava com a outra, e aí saia da linha principal. Quando era socorro assim não tinha hora, a oficina aqui dava três apitos, chamando as pessoas pra ir. Então as pessoas que eram escaladas tinham que levantar, podia estar chovendo, fazendo frio, tinha que levantar e ir. E quando ela chegava no local do acidente, não tinha hora para almoçar, nem jantar, e nem dormir. Só depois que terminava o serviço é que nós ia descansar um pouquinho.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Qual o lugar mais difícil que o senhor foi como socorro?</strong></p>
<p>Um dos <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">acidentes</a> mais difíceis que eu achei no período que eu trabalhava na ferrovia foi antes de eu aposentar. Nós chegamos e eu não perguntei o que tinha acontecido, qual o motivo, o vagão que tinha tombado, não perguntei nada. Saí daqui com o guindaste, nesta época já tínhamos um guindaste. Ele ajudava a levantar a locomotiva, um serviço que nós demorava 24 horas, o guindaste levava duas. E nós saímos com o guindaste, quando chegamos lá no local do acidente, era uma ponte que estava sendo colocada e o operador, não sei se ele descuidou, só sei que a ponte foi andando, foi andando e caiu no rio, levou o guindaste junto, o guidaste caiu lá em embaixo. Este foi o mais difícil, ficamos vinte e poucos dias neste serviço. O serviço era bem grande, a gente dormia, descansava um pouquinho, trabalhava até certa hora da noite e só descansava um pouquinho, voltava de manhã. Trabalhava dentro de água, quando chovia. Então quando eu voltei aqui para sede, eu requeri minha aposentadoria. Os companheiros achavam que eu fiquei apavorado com aquele acidente e sofri muito, e estava aposentando por causa disto, mas não é. Foi porque eu tinha tempo pra aposentar. Eu tinha outras responsabilidades então eu achei por bem sair.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Quando tocava a sirene da ferrovia?</strong></p>
<p>Ela tocava as seis e meia e quinze para as sete, quando chegava sete horas, tocava mesmo para pegar no serviço. Tocava às onze horas, pra nós terminar pra almoçar, e depois tocava quinze pro meio dia, e depois meio dia, pra voltar. Era uma hora de almoço, depois parece que passou pra hora e meia. Tocava duas vezes, tocava alertando que era pra gente ir embora, quando a gente tava lá que tocava outra. De tarde tocava às quatro e meia, era um só. Era apito, depois passou a ser sirene. Já estava acostumado com os apitos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>O que fazia no lazer?</strong></p>
<p>Não tinha lazer nenhum, era só trabalho. Tinha colegas que se encontravam para jogar truco, outros para jogar uma bola, mas eu já não me envolvia com isto aí porque eu não gostava, já me envolvia mais com família. Construí esta casa em 1950.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>O senhor aposentou quando?</strong></p>
<p>Eu aposentei no dia 1º de setembro de 1974, tô com 36 anos aposentado, vou requerer outra (<em>risos</em>).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>O senhor viajou muito de trem? Até onde o senhor já foi de trem?</strong></p>
<p>Em férias, tinha passe gratuito, eu e a família. Quando estava em serviço também tinha passe. Sempre viajava de férias, porque eu outras ocasiões não tinha oportunidade. Mas a gente viajava em serviço, por exemplo, eu fui várias vezes em BH. Demorava quase 24 horas daqui lá. Saia daqui uma hora da tarde, porque fazia uma espécie de um triângulo: ia lá em Iguatama, na estação chamada Garça. Então a ferrovia ia lá em Iguatama e depois voltava. Então saía aqui uma hora e, correndo tudo bem, chegava às dez horas da manhã, do outro dia. Tinha carro de dormitório para a pessoa dormir.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>O senhor tem saudade de andar de trem?</strong></p>
<p>A gente sente saudade, aquele barulhinho dos trilhos, aquelas emendas faziam tec-tec, tec-tec, (<em>risos</em>)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Como o senhor vê a ferrovia hoje? O senhor vê a possibilidade de voltar?</strong></p>
<p>Acho que não existe a possibilidade porque esta ferrovia foi construída em tempos passados, que não tinha recursos, então os engenheiros acompanhou as curvas do rio. Hoje é diferente. Hoje você vai construir uma ferrovia e só faz retas, porque as curvas, além de facilitar para tombar, é demorado. Alguém ainda disse que os engenheiros ganhavam por quilômetro de construção dos trilhos, mas eu acho que não, não tinha condição, o desaterro era feito em carroças. Não tinha caminhão, não tinha nada, hoje tira a montanha aí, transporta a montanha em pouco tempo. De acordo com o progresso pode voltar, mas vai voltar uma ferrovia moderna, esta não tem mais condições. Aí teria que fazer novas linhas, uma bitola mais larga, e mais velocidade. Hoje o povo quer velocidade, a população quer velocidade, quer ganhar tempo. E vai chegar o tempo que um presidente sai lá da Europa, corre o mundo todinho e ainda vai dormir em casa.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Tem algum fato ou acontecimento que o senhor queira compartilhar?</strong></p>
<p>O que eu gostaria de te contar, quando eu trabalhei na ferrovia, os companheiros diziam do sofrimento do passado, e achava que nós já estávamos numa fase muito melhor e eu já dizia para os que vinham chegando que a gente tinha sofrido e a fase que ia alcançar. Porque sempre foi melhorando e aperfeiçoando, mas não chegou no aperfeiçoamento total.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Da ferrovia eu não tenho saudade, eu tenho saudade dos companheiros, porque eu dei a minha vida pra ferrovia, mas a ferrovia me pagou, nós trocamos. Mas deixamos boas amizades, muitos companheiros partiram pra eternidade e nós somos os remanescentes, que estamos ficando esperando também. Eu hoje estou com 87 anos, 36 anos aposentado e espero que Brasília e as autoridades voltem seus olhares para a ferrovia, porque é um transporte que tem condições de dar muito lucro. No caso da Mangels aqui, enquanto um caminhão carrega uma bobina, só uma prancha de ferrovia, carrega cinco, seis. Olha que vantagem! Então todos os países que voltam seus olhares para a ferrovia é país desenvolvido, sabe que a ferrovia resolve mesmo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>O que o senhor fez depois que aposentou?</strong></p>
<p>Assim que eu aposentei eu fui procurar estudar, eu fiz quatro anos de teologia, eu procurei estudar porque eu assumi a responsabilidade da Igreja Evangélica Assembleia de Deus, que era bem pequena aqui, e assumi esta responsabilidade e procurei estudar, e estou com 36 anos pastoreando. Aqui em Três Corações eu sou o pastor mais velho e nunca quis ganhar, eu não sou remunerado, nunca quis, sempre eles quiseram, mas eu nunca quis porque trabalho por amor, e Deus me abençoou muito, porque eu consegui criar oito filhos e estes oito filhos já estão tudo encaminhado, pra que que eu vou querer dinheiro? Tenho dezesseis netos e bisnetos, tenho dois.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>O que o senhor achou de contar estas histórias para a gente?</strong></p>
<p>É muito bom, porque isto aí vai ficar pra passar pras gerações que vão vir. Eu tenho um retrato de Três Corações bem no começo. Então são coisas boas, quando a gente vê esse retrato do início da ferrovia e vê hoje por exemplo, em relação aquela época quer dizer que evoluiu muito.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Morava numa casa bem humilde</title>
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		<pubDate>Tue, 05 Jul 2011 14:09:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Morais</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Meu nome é Rosa Leite de Oliveira. Meus pais se chamavam Manoel Luis de Oliveira e Odília Leite de Oliveira e eu nasci em 1º de agosto de 1953 em Bonito de Santa Fé, na Paraíba. Fui criada no Maranhão, em Vitorino Freire. Lá, meu pai era sapateiro. Morava numa casa bem humilde, era de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://museudaoralidade.org.br/wp-content/uploads/2011/07/rosa.jpg"><img class="aligncenter size-large wp-image-518" title="Rosa Oliveira" src="http://museudaoralidade.org.br/wp-content/uploads/2011/07/rosa-494x330.jpg" alt="" width="494" height="330" /></a></p>
<p>Meu nome é Rosa Leite de Oliveira. Meus pais se chamavam Manoel Luis de Oliveira e Odília Leite de Oliveira e eu nasci em 1º de agosto de 1953 em Bonito de Santa Fé, na Paraíba. Fui criada no Maranhão, em Vitorino Freire. Lá, meu pai era sapateiro. Morava numa casa bem humilde, era de <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">taipa</a>, a maioria das casas era de <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">taipa</a>. Ele aprendeu trabalhando no <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Maranhão</a>. Ele criou uma sapataria que era dele mesmo. Eu ajudava meu pai, eu era a mais velha, eu e um outro irmão. Era uma sapataria bem pequena. A gente ajudava meu pai na sapataria. Eu passava cola no solado do sapato. Eu gostava muito. Era só meu pai, eu e meu irmão que tomava conta da sapataria. O nome do meu irmão era Adalberto Luis de Oliveira. Nessa época eu tinha uns 11 anos.</p>
<p>Era uma cidade bem pequena na época. Eu brincava de política, imaginava que era a prefeita da cidade. Tinha brincadeira de roda, ciranda, eu era mais para brincadeira de menino-homem, gostava de jogar castanha, castanha de caju. A gente colocava um monte de areia, enfiava um sabugo e jogava a castanha. Ficava a uns três metros de distância. Aí era bastante criança, quem derrubasse o sabugo, ganhava todas as castanhas que estavam ao redor. Eu jogava isso aí. Lá tinha muito pé de caju, eu acabava com os caju tudo! (risos) Eu gostava muito dessa época, tenho muita saudade.</p>
<p>Como eu fiz um tratamento muito bom eu não tenho seqüelas. Eu me cuidei e me acostumei a morar aqui. Eu sou funcionária da FHEMIG há 27 anos. Eu vim para <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Colônia Santa Fé</a> em 1990. Vim para cá com a cara e a coragem, com três filhos. Quando eu entrei ali naquela entrada, como eu estava com depressão, pra mim parecia que o mundo estava acabado, quando eu entrei ali parecia que eu estava entrando no céu. Daí foi só alegria, graças a Deus. Aqui em consegui criar meus filhos, consegui formar meus filhos, consegui dar uma vida digna para minha mãe.</p>
<p>Tudo que eu tenho hoje, o que eu sou, por mais que eu sofri, eu agradeço a <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">hanseníase</a> hoje eu ser quem eu sou. Não tive estudo, tinha que ajudar a criar meus irmãos. Mas eu posso entrar e sair de qualquer lugar. Tenho conhecimento de qualquer tipo de doença. Conheço o Brasil todo, por causa do MORHAN e dessa doença viajei o Brasil todo. Tenho muitas amizades. Eu tenho a minha casa. Eu tenho condição de educar meus netos. Faço todo tipo de artesanato. Eu posso falar que sou rica, sou feliz e sou saudável.</p>
<p>Tem muita gente que apesar de saber da doença, tem medo de se aproximar da gente. Se ele soubesse como a colônia é boa e tranqüila&#8230; Penso que não tenham medo, se aparecer uma mancha e não souber o que é que procurem a gente. A gente ta aí para ajudar. Aqui nós temos médicos para isso. Aqui dentro nós não transmitimos mais nem um tipo de doença. Qualquer problema que tiver, procure a Casa de Saúde Santa Fé que aqui nós temos médicos de várias especialidades de graça. Nós podemos ajudar. Hoje já existem doenças piores que <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">hanseníase</a>, que matam, a <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">hanseníase</a> não mata.</p>
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		<title>Nós tinha o conjunto e eu tocava sax</title>
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		<pubDate>Tue, 05 Jul 2011 13:48:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Morais</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Meu nome é Ermelinda Nadaletti Araújo. Nasci em Muzambinho. Meus pais são Antonio Nadaletti e Ida Zandomenighi. Meu pai vendia as coisas da fazenda em Muzambinho e me chamava pra ir junto, porque ele achava que eu era mais esperta pra andar do que meus irmãos. Então era aquela briga lá em casa, mas ele [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://museudaoralidade.org.br/wp-content/uploads/2011/07/Colôni-Santa-Fé-ago-2008-069.jpg"><img class="aligncenter size-large wp-image-513" title="Ermelinda Nadaletti" src="http://museudaoralidade.org.br/wp-content/uploads/2011/07/Colôni-Santa-Fé-ago-2008-069-494x330.jpg" alt="" width="494" height="330" /></a></p>
<p>Meu nome é Ermelinda Nadaletti Araújo. Nasci em Muzambinho. Meus pais são Antonio Nadaletti e Ida Zandomenighi.</p>
<p>Meu pai vendia as coisas da fazenda em Muzambinho e me chamava pra ir junto, porque ele achava que eu era mais esperta pra andar do que meus irmãos. Então era aquela briga lá em casa, mas ele só deixava eu ir. Vendia queijo, cebola, essas coisas da roça, tudo na charrete. Minha irmã que fazia queijo, e às vezes fazia três, quatro queijos por dia. O pessoal gostava muito dos queijos, quando demorava a levar o pessoal das vendas reclamavam. Era um queijo muito maciinho. Hoje as vacas, os porcos são tudo criado com ração, então parece que as coisas não tem mais gosto.</p>
<p>Quando eu vim pra cá, naquele tempo era bom, tinha muita gente. Tinha tudo, dois dias, três, eu fiquei querendo morrer, mas depois tinha baile todo dia, tinha cinema, tinha teatro, tinha muito moço. O <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">namoro</a> não podia nem pegar na mão, o guarda ficava em cima. Os guardas era tudo daqui, mas era um colosso de guarda. Ficava um lá em baixo e outro lá em cima. Um dia, um rapaz que eu fui trabalhar pra ele era noivo, ele me contou que foi passear, e minha irmã trabalhava na casa do delegado. Aqui tinha cadeia e tinha delegado. Desse tempo, o delegado era o Sebastião. Eles foram passear e o delegado ficou olhando lá de baixo. E chegou no meio, ele resolveu pegar na mão dela e abraçar. O delegado veio correndo lá de baixo e falou com ele:</p>
<p>- Você sabe que não pode!</p>
<p>- Não pode não? Então caso com ela! Eu tô de aliança, eu vou casar.</p>
<p>Era o Pedrão.</p>
<p>- Se eu vou casar, porque eu não posso pegar na mão dela?</p>
<p>Tinha muito rapaz bonito, tinha muita moça. Era dois pavilhão de moça solteira. Tinha avenida dos rapazes, das moças e dos namorados. A dos namorados começava na parte da cozinha e terminava lá em cima perto da portaria. Depois fizeram os bancos, e os namorados podiam sentar nos bancos. Cinema tinha toda semana. Passava os filmes do Mazzaroppi, mas eu não gostava do filme, eu ia mais era pra namorar mesmo. Meu primeiro namorado chamava Jurandir. Mas nesse tempo mudou de delegado, aí mudou o ritmo. Aí já podia pegar na mão.</p>
<p>Nós tinha o conjunto e eu tocava sax. Um professor de <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Três Corações</a>, José Nogueira, vinha aqui dar aula pra nós duas vezes por semana, mas quem me ensinou foi a tocar foi o José Freire. Eu tocava música de baile, aquelas antigas, bolero, samba-canção, era muito gostoso. Não tem uma música que eu prefiro, todas eram boas. Tocava nos bailes e no carnaval. Nos três dias de carnaval, a gente tocava até amanhecer. Tinha o Guri, que tocava trombone. A Irandir tocava clarinete e a Conceição tocava sax também. O Eliseu hoje está na cidade e tocava guitarra. E tem o Toninho que batia a bumba. Tinha a Elisa, que tocava clarinete e a mãe dela tocava o pistão. Era grande o conjunto, tinha 13 pessoas. No Carnaval, vinha gente da cidade, enchia o salão.</p>
<p>Aqui sempre teve encenação da paixão de Cristo. No começo, era muito bom. Tinha os atores, tinha um que gostava muito, que fazia o Jesus, era o Joaquim Dentista. Eles arrumavam o cavalo e tinha aquelas lanças, era muito bonito. Um dia ele trabalhou tanto que quando ele chegou na Igreja quase que ele demaiou. Ele tratava de dente de todo mundo aqui, fazia dentadura pra todo mundo. Ranquei todos os dentes com ele. As dentaduras do Joaquim, coitado, gastava muito e acabava rápido. Mas era muito bom dentista.</p>
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		<title>Foi assim que eu aprendi, olhando e querendo fazer</title>
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		<pubDate>Tue, 05 Jul 2011 13:38:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Morais</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Eu só tenho historinhas. Meu nome é Maria Elza Soares dos Santos. Quando eles me trouxeram da minha terra para cá eu cheguei injuriada. Foi em 7 de janeiro de 1975. Não queria dar um passo. Tinha muita gente, mas era muito sossegado. Nasci em Coração de Jesus, mas na juventude fui trabalhar em Montes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://museudaoralidade.org.br/wp-content/uploads/2011/07/Imagem-330.jpg"><img class="aligncenter size-large wp-image-508" title="Maria Elza" src="http://museudaoralidade.org.br/wp-content/uploads/2011/07/Imagem-330-494x329.jpg" alt="" width="494" height="329" /></a></p>
<p>Eu só tenho historinhas.</p>
<p>Meu nome é Maria Elza Soares dos Santos. Quando eles me trouxeram da minha terra para cá eu cheguei injuriada. Foi em 7 de janeiro de 1975. Não queria dar um passo. Tinha muita gente, mas era muito sossegado. Nasci em Coração de Jesus, mas na juventude fui trabalhar em Montes Claros, de doméstica. Na casa da patroa, tinha criança. Eu não gostava de cuidar de criança. Ai eu falei pra minha patroa que queria cozinhar, ela duvidou se eu sabia. Mas já tinha tudo na cabeça. Então fiz tudo muito bonitinho, com gosto, tanto que o marido dela gostou e perguntou quem havia feito aquela comida. Ela apontou para min na porta. Trabalhei muito tempo com eles. Tanto que meus documentos já estavam caminhando para aposentadoria. Mas aí chegaram uns homens para me trazer e então eu pedi para cancelar meu pedido. Não sabia!</p>
<p>Meu filho, tive que entregar pro pai dele, que tinha recurso e podia criar, tinha condição. Quando meu pai morreu, eu era pequetitita. Ele estava no curral olhando os animais e de repente caiu morto no chão. Nesta época, minha mãe estava esperando outra criança. Ela ficou tão desorientada que a família dela trocou a fazenda dela pra uma casa com quintal grande.</p>
<p>Ela custou a casar de novo; foi casar com o José Cabeça de Manga. Sim, lá na minha terra eles tinham esta mania de por apelido em todo mundo. Me lembro que eu brincava e brigava muito com meu irmão, mas era sempre eu que apanhava de minha mãe. Esse meu irmão era muito estranho, se transformava em cupim, fazia umas coisas que só de falar&#8230; Ele montava a cavalo e arrumava umas coisas, uns trens esquisitos!</p>
<p>Tinha uma tia que era doente, era de câncer, mas fui saber muito tempo depois. Quando ela morreu, o pessoal mandou desinfetar a casa toda com álcool. Coisa boba, pois conversando com a Etelvina ela que me falou que era câncer. É que tinha a tuberculose contagiosa. Mas não são todas as doenças que são contagiosas. A gente não pode ter pressa pra morrer!</p>
<p>Oh! Eu até gosto de uma cervejinha e nas festas do Morhan, eu aproveito, faz parte da vida. Os tapetes, aprendi a fazer aqui mesmo, com a Dolores, ela que incentivou. Foi assim que eu aprendi, olhando e querendo fazer.</p>
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		<title>Minha irmã mais velha que arrumava a gente</title>
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		<pubDate>Tue, 05 Jul 2011 13:16:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Morais</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Meu nome é Maria José dos Anjos. Nasci em Carmo do Cajuru. Na época, era arraial de Itaúna. Depois fui para Divinópolis. Em Carmo do Cajuru, morei até os nove anos de idade. Nós éramos 12 irmãos. A infância era boa, né? A vida de casa, com os pais&#8230; eu gostava de brincar com boneca, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://museudaoralidade.org.br/wp-content/uploads/2011/07/mariajosedosanjos.jpg"><img class="aligncenter size-large wp-image-503" title="Maria José dos Anjos" src="http://museudaoralidade.org.br/wp-content/uploads/2011/07/mariajosedosanjos-494x329.jpg" alt="" width="494" height="329" /></a></p>
<p>Meu nome é Maria José dos Anjos. Nasci em <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Carmo do Cajuru</a>. Na época, era arraial de Itaúna. Depois fui para Divinópolis. Em <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Carmo do Cajuru</a>, morei até os nove anos de idade. Nós éramos 12 irmãos. A infância era boa, né? A vida de casa, com os pais&#8230; eu gostava de brincar com boneca, que a gente fazia. Tinha boneca que comprava na cidade, aí minha irmã mais velha fazia as roupinhas.</p>
<p>No arraial, tinha que trabalhar, mas era com gosto. A festa da <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">igreja</a> era linda. Tive um tio que era padre, Padre José. A casa era de assoalho, teto alto e de telha. Quando a gente ia pra <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">igreja</a>, ia todo mundo junto; então minha irmã mais velha que arrumava a gente. Era um custo arrumar os cabelos, mas ela era habilidosa. Foi ela que me ensinou a cozinhar. Comecei pelo biscoito, depois doce, ela ensinava tudinho. Aos sete anos já refogava arroz. Lá tinha plantação de inhame, uns a gente dava para os porcos. Eu ajudava a descascar mandioca para fazer polvilho; cada um tinha sua obrigação. Eu ajudava a lavar as vasilhas; gosto de lembrar todo mundo junto.</p>
<p>Minha mãe era clara; o médico que ia lá disse que ela morreu de maleta e ai meu pai acho que morreu de paixão por causa dela. Quando ela estava doente a gente ficava pensando se nunca mais ia vê-la. Depois fui morar com minha irmã e acho que quando fui buscar leite, tinha que atravessar a cidade alguém me viu e avisaram&#8230; e aí meu irmão me levou para o médico em Belo Horizonte.<br />
Aí vim parar aqui, aqui fui para o salão das marianas, filhas de Maria&#8230; a gente se consolava. O tempo foi passando, eram muitas meninas mocinhas amigas da gente. Vixe! Era animado aqui. Mas as filhas de Maria não podia ir no carnaval, só podia olhar. No esporte, participava do time de vôlei, com uniforme e tudo. Casei aqui mesmo, ele era de Conselheiro Lafaiete, ele gostava de tango e valsa.</p>
<p>Tinha música boa. Havia muita conversa. O povo de hoje não que ouvir muito não. É preciso ter mais cuidado com a vida&#8230; ter mais reserva. Ter hora para cada coisa, ter cuidado com as amizades. Essa liberdade muito acaba com as crianças.</p>
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		<title>Procurei ela que nem a gente segue procissão</title>
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		<pubDate>Tue, 05 Jul 2011 12:59:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Morais</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Me chamo Luzia Teixeira da Silva, nasci numa casinha de sapê, só me lembro do meu pai, Alfredo Enídio Teixeira. Lembro que todo dia ele chegava do trabalho trazendo um papelzinho com um pedaço de rapadura e amendoim pra eu comer. Mas um dia ele não trouxe mais, pegou na minha mão, passamos por uma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://museudaoralidade.org.br/wp-content/uploads/2011/07/Imagem-238.jpg"><img class="aligncenter size-large wp-image-499" title="Luzia Teixeira da Silva" src="http://museudaoralidade.org.br/wp-content/uploads/2011/07/Imagem-238-494x329.jpg" alt="" width="494" height="329" /></a></p>
<p>Me chamo Luzia Teixeira da Silva, nasci numa casinha de sapê, só me lembro do meu pai, Alfredo Enídio Teixeira. Lembro que todo dia ele chegava do trabalho trazendo um papelzinho com um pedaço de rapadura e amendoim pra eu comer. Mas um dia ele não trouxe mais, pegou na minha mão, passamos por uma cerca e ele foi me deixando em casas. Me deixava em casas dos outros, que fazia eu trabalhar e apanhar muito, comia pouco. Até que ele apareceu e me levou na linha do trem para o trem me pegar; mas os passageiros viram e ele tentou me jogar no córrego; por sorte uma dona avistou e gritou e me pegou. Outra vizinha dela, quando me viu de perto, falou que ali não era cemitério.</p>
<p>Essa dona me cuidou. Mas quando melhorei, foi muito trabalho e muita surra. Eu cuidava dos animais, buscava lenha, tudo quando era serviço de molequinho eu fazia. Nesta época não estudei e nem brinquei. Deitava tardão e acordava na primeira cantiga do galo. Abria a tronqueira para os animais. Foi tanta peleja que posso dizer que a lepra me salvou. Cheguei a tomar burgante pra dar jeito na vida. Mas esse povo todo, era leproso, eles viviam escondido.</p>
<p>Depois me levaram para Santa Fé, fiquei sabendo que uma Geralda tinha uma filha com nome de Luzia e procurei ela que nem a gente segue procissão. Na enfermaria de Santa Fé, me falaram que ela estava em Santa Isabel e nesta mesma hora veio a irmã de caridade para me levar para aprender a ler.</p>
<p>Quando cheguei aqui em santa Isabel, brincava de rodinha, de anel. Esse anel não é de ninguém, não é de você mas é de quem eu quero bem! Rodinha eu gostava muito. Aqui tem gente pra conversar, comer jiló. Eu ficava no pavilhão das crianças. Depois chegou uma dona pedindo uma criança para ser doméstica na casa dela, era dona Adelaide, fez muito por mim. Passou o tempo, em Citrolândia, um moço de terno branquinho me olhou até os olhos ficaram embaralhados. Esse moço falou em casar, casamos, tivemos seis filhos; mas eles tiraram e disseram que morreram na creche. Neste tempo eu já havia encontrado minha mãezinha em Santa Isabel. Fui conhecer minha Sogra, eu coloquei o apelido nela de pulga, ela era miudinha e no meu sogro de besouro, pois ele falava grosso.</p>
<p>Meu marido, um santo Heitor, tinha um grande amor, virou pra Leonor, mas pra mim nunca faltou. Depois casei de novo. Aí o pé piorou&#8230; me lembro da ambulância gritando ai, ai, ai, ai&#8230; eu lá dentro: “ai, meu Deus do céu, que tanto ai”! Pedi ao motorista: manda parar este aí. Fui eu e o acompanhante para o meu pé virar, mão de pilão pra poder cuidar da obrigação. Foi no Hospital Amélia Lins. Passou tempo, o segundo marido faleceu. Mas hoje gosto daqui, assisto televisão e durmo sonão.</p>
<p>E falo assim que esse povo que vem: andar no bom caminho e que os filhos deixem os pais te ensinarem; pois a escola da vida não tem olhos.</p>
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		<title>O dia que a policia fechou a rua 40, deixou muita saudade</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Jun 2011 18:46:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Morais</dc:creator>
				<category><![CDATA[Memórias]]></category>
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		<description><![CDATA[Por favor, o senhor poderia falar seu nome completo, data de nascimento e quem foram seus pais? Meu nome é Isaac Boczar, eu sou arqueológico, eu nasci em 3 de outubro de 1926. Meu pai se chamava Coss Boczar, tem até uma rua aqui com o nome dele. Quando meu pai morava na Polônia, ele [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><!-- 		@page { margin: 2cm } 		P { margin-bottom: 0.21cm } --><em><strong><a href="http://museudaoralidade.org.br/wp-content/uploads/2011/06/IMG_9011.jpg"><img class="aligncenter size-large wp-image-480" title="Isaac Boczar" src="http://museudaoralidade.org.br/wp-content/uploads/2011/06/IMG_9011-494x329.jpg" alt="" width="494" height="329" /></a></strong></em></p>
<p><em><strong>Por favor, o senhor poderia falar seu nome completo, data de nascimento e quem foram seus pais? </strong></em></p>
<p>Meu nome é Isaac Boczar, eu sou arqueológico, eu nasci em 3 de outubro de 1926. Meu pai se chamava Coss Boczar, tem até uma rua aqui com o nome dele. Quando meu pai morava na Polônia, ele era comerciante de gado. Meu pai  era judeu, nosso povo foi muito perseguido na Polônia. Meu pai veio para o Brasil porque se sentiu inseguro, diante disto, escondeu a família toda com a minha avó, numa fazenda no interior, ele já era casado, mulher e cinco filhos. E veio a pé para pegar um navio para os Estados Unidos. A irmã dele, chamada Fani, tinha vindo antes para EUA, o sonho dele ele ir para Nova Iorque e se encontrar com esta irmã. Ele caminhou o dia inteiro, de dia ele dormia, de noite ele entrava nas fazendas comia frutas e assim atravessou a Polônia, Rússia e foi parar em Hamburgo. E lá ele viu um navio e estava crente que o navio ia para Nova Iorque. Ele entrou e se escondeu num bote, em alto mar o oficial do navio o encontrou clandestino. Levou ele na presença do comandante e como era tradição da época, o comandante colocou ele para trabalhar. Foi assim que ele descobriu que estava vindo para o Brasil.</p>
<p>Quando aqui chegou no Brasil, foi em pleno surto de febre amarela. Ele foi internado na Ilha das Flores. Ficou lá seis meses. Quando ele saiu, arranjaram um emprego pra ele como motorneiro de bonde, condutor de bonde elétrico. Eu sei que depois de quatro anos que ele morava no Rio, ele já tinha juntado umas economias. Aí um conterrâneo, que tinha um apelido gozado, Pipoca, procurou e disse: &#8220;Seu Coss, eu tô indo pra uma cidade do interior, Três Corações, a cidade é virgem, e lá tem a maior feira de gado do Brasil, quer ir comigo?&#8221; Meu pai parou, pensou, pediu demissão do emprego, retirou o dinheiro do banco, pagou passagem para este conterrâneo e vieram parar em Três Corações. Aqui ele fez tudo para arranjar um lugar de comissário comprador de gado, mas não deixaram ele entrar, a Feira de Gado era fechada, tinha dono. Então ele pegou as economias, comprou mercadoria e um cavalo e começou a vida como <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">mascate</a>, de fazenda em fazenda. Foi ele quem inventou a prestação aqui, antigamente só se vendia à vista e ele vendia a prestação. Depois ele ele descobriu que o cavalo estava comendo todo o lucro, então ele largou mão e abriu uma portinha e desta portinha, ele abriu outra e foi abrindo loja, abriu loja aqui, abriu em Alfenas, abriu em Varginha, em São João Del Rey, ele abriu uma rede de lojas grande e ficou nisso até que minha mãe adoeceu ele vendeu tudo e ficou ao lado dela. Morreu com 81 anos. A loja dele chamava <em>O Mobiliário Elegante de Coss Boczar</em>.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em><strong>Qual ao primeira lembrança que o senhor tem de <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Três Corações</a>? Como foi sua infância aqui? </strong></em></p>
<p>Me trouxeram pra o Brasil em 1931, eu estava com 4 anos e meio. Eu desembarquei num navio inglês, eu peguei o navio em Hamburgo e desembarquei em Santos. Eu vim muito novo, não fala uma palavra de português e quando desembarquei na estação de  <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Três Corações</a>, em pleno inverno, a cidade estava coberta de nevoeiro. <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Três Corações</a> era uma rua cheia de árvores, era a estação, o quartel e só. Tinha a Companhia Mineira de Eletricidade, mas era tão pobre que nós chamávamos Companhia Mineira sem Eletricidade, não tinha energia elétrica suficiente para uma lâmpada moderna.</p>
<p><a href="http://museudaoralidade.org.br/wp-content/uploads/2011/06/isaacboczareditado.mp3">Isaac Boczar</a> Na rua 18, atual calçadão, tinha a Bicicletaria do Biju, ele alugava bicicleta por 600 réis a hora. E um dia eu tinha recolhido um caminhão de lenha pro meu pai, ganhei 600 reis e sai para ir ao cinema, ver o filme o Homem Invisível, era o sucesso do momento. Mas não resisti à tentação e passei na bicicletaria e o Biju perguntou: &#8220;Ô Isaac, não que uma bicicletinha?&#8221; E eu acabei gastando o dinheiro do cinema para andar de bicicleta. Quando fui passar entre o poste e o meio fio, o gancho da bicicleta agarrou e ficou imprensado, e eu tomei um tombo e entortei toda a bicicleta. O dono da bicicletaria ficou uma arara comigo, ele queria que eu pagasse o conserto, mas foi um acidente eu não paguei nada. O pior é que eu fique sem ver o filme porque ele nunca mais entrou em cartaz.</p>
<p>Foi muito difícil me adaptar a língua, eu tive uma sorte, minha primeira professora primária se chamava Dona Elisa Lemos de Campos, viúva, e ela viu minha dificuldade, então ela ia na tipografia, pegava restos de cartolina, e tudo quanto é palavra que eu não conhecia, eu recortava dos jornais e colava na cartolina, e procurava no dicionário, eu aprendi português no tapa. Foi dificil, viu!</p>
<p>Eu lembro da viagem pro Brasil, cada detalhe tá gravado aqui na memória, minha memória tá mais viva do que nunca. Me lembro que uma vez eu simplesmente desapareci do navio, pararam o navio, gritaram &#8220;homem ao mar!&#8221;, estavam crente que eu tinha caído n&#8217;água. Foram me descobrir na casa das máquinas, no porão, em frente a fornalha, com a camiseta e a cara lambuzada de carvão e chupando laranja. A viagem durou mais de 4 meses, viemos desembarcar em Santos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em><strong>Teve algum fato aqui em Três Corações que marcou o senhor? </strong></em></p>
<p>Em abril de 1945 aconteceu uma explosão aqui, foi uma coisa feia, explodiu um vagão de munições na estação, destruiu o depósito, destruiu a estação. A EsSa ficou sem luz, a ponte ficou interrompida. Foi num domingo quatro horas da tarde, eu tava vindo do cinema, tinha ido na matinê. Eu tava deitado lendo no meu quarto, fazendo palavras cruzadas. Na primeira explosão, houve um deslocamento de ar tão grande, a minha janela estava aberta, que o lustre caiu em cima da minha cabeça, tenho até o sinal. Logo em seguida, outra explosão, foram duas, mas foi um negócio feio. Era um trem de munições que vinha descarregar no quartel, naquele tempo a linha entrava no quartel. E no meio do caminho uma brasa da locomotiva entrou num buraco do vagão e foi queimando uma caixa de explosivos, dinamite, e ninguém viu. Quando chegou na estação, o fogo se alastrou, quando viram que o vagão ia explodir o povo saiu gritando: &#8220;Corre, vai explodir!&#8221;</p>
<p>Teve um maquinista, coitado, era meu freguês na loja, quando ele viu que ia acontecer, ele se atirou no chão, mas foi tão azarado que um pegaço de ferro atravessou o coração dele, e morreu na hora, eu acho que o nome dele era Geraldo Magela. Ele era ferroviário, estava noivo, ia casar em um mês, perdeu a vida estupidamente. Eu fui na farmácia do Luciano, perto do Parque Infantil, tinha um pedaço de roda do vagão caída na calçada, você não faz ideia da violência das explosões. Um trem carregado de munições, foi uma tragédia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em><strong>Quando o senhor começou a trabalhar? Quando o senhor conheceu sua esposa? </strong></em></p>
<p>Eu sempre trabalhei com meu pai. Com 14 anos já era professor de inglês no antigo colégio Américo Dias Pereira. Eu fui professor de inglês um ano e naquela época veio para Três Corações um cidadão baiano, cabeça branca, chamado Oscar Palma Lima, que veio a ser  meu sogro. Um dia ele entrou na loja e se apresentou: &#8220;Meu nome é Oscar Palma Lima, sou o novo gerente do Banco do Brasil, o senhor é cliente do banco?&#8221; Eu disse: &#8220;Sou, sim senhor&#8221;. Ele disse: &#8220;Eu quero ter  o prazer de ver o senhor na minha agência&#8221;.</p>
<p>Quando foi nas férias de junho, meu irmão caçula Rafael, era estudante de engenharia em Itajubá, veio aqui passar as férias e conheceu a minha patroa e começaram uma tentativa de namoro, mas ele só sabia falar de matemática e engenharia, ela cansou dele. Na hora que acabou as férias, antes do meu irmão ir embora, ele chegou perto de mim e ali na loja e disse: &#8220;Isaac, vou te pedir um favor, eu to indo para Itajubá, você toma conta da minha namorada&#8221;. Eu falei: &#8220;Tomo, pode deixar&#8221;. Tô tomando conta dela até hoje (risos)&#8230; Faz 55 anos&#8230;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em><strong>Como foi o namoro? Como foi seu <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">casamento</a>? </strong></em></p>
<p>Existe uma tradição que o rapaz judeu só pode casar com moça judia, minha mãe me sabotava de tudo quando é maneira. Cada vez que eu arranjava uma namorada, ela chamava a namorava e dizia: &#8220;Escuta, você tá namorando meu filho Isaac, minha filha você está perdendo seu tempo. Você não sabe que não pode casar com ele? Pela lei rapaz judeu só casa com moça judia&#8221;.</p>
<p>Eu levei cinco anos para poder casar. O nosso correio era censurado. Minha mulher escrevia pra mim todo dia, eu telefonava para ela todo dia. Então a carta vinha por uma amiga, a amiga recebia e entregava pra mim e para Belo Horizonte eu mandava direto para o pensionato que ela morava. Durante 5 anos foi esta luta, não podia, porque não podia. Um dia ela me chamou e falou : &#8220;Olha aqui, vamos esclarecer isto de uma vez, ou casa ou não casa! Minha juventude está acabando e preciso me situar&#8221;. Eu falei: &#8220;nós casamos sim&#8221;. Cheguei na casa do sogro e pedi ela em <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">casamento</a>. Ele acendeu o charuto e disse: &#8220;Estou de pleno acordo, mas tem uma coisa, você já disso para o seu pai?&#8221; &#8220;Não eu sou maior de idade, não preciso da permissão dele&#8221;. &#8220;Mas mesmo assim eu vou falar com ele&#8221;. No dia seguinte ele botou o terno branco, acendeu outro charuto e foi lá, muito elegante: &#8220;Seu Coss, o seu rapaz pediu minha filha em <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">casamento</a>. Eu concordei, o senhor está de acordo com este casamento?&#8221;</p>
<p>&#8220;Olha, o senhor me pegou de surpresa, ele não me falou nada não&#8221;.</p>
<p>&#8220;É, mas eu acho bom o senhor concordar porque eles se gostam, este negócio de religião, eu não sou muito religioso, não ligo para isto não&#8221;.</p>
<p>Com isto, meu pai acabou concordando. Eu chamei todos os cinco irmãos, botei os cinco irmãos ao meu favor. Menina, no dia do meu casamento, a cidade inteira compareceu, tinha gente pra tudo quando era lado. A minha sogra, dona Maria dos Anjos, fez um vestido de baile para a minha patroa, chamou o melhor fotógrafo da cidade. Resultado: casamos, e para entrar num acordo, a minha mulher falou: &#8220;Eu só caso se você concordar comigo em casar na igreja.&#8221;</p>
<p>&#8220;Caso.&#8221;</p>
<p>&#8220;Se você concordar em criar nossos filhos na igreja&#8221;.</p>
<p>&#8220;Concordo&#8221;.</p>
<p>Quando foi no casamento, a cidade inteira compareceu. Modéstia à parte, foi uma apoteose: tinha juiz, comandante da essa, gerente de banco, autoridades civis, gente da rádio, todo mundo. Resultado, nós casamos à uma hora, chegamos no campo de aviação, pegamos um avião que vinha de São Paulo, descemos na Pampulha, em Belo Horizonte, almoçamos lá, pegamos um táxi, fomos na igrejinha da Serra, da comunidade de Santana e lá o padre, Arthur Viegas, nos casou, e a única testemunha foi o chofer do táxi. Aqui em Três Corações teve uma recepção, um almoço. Mas na igreja eu casei lá em Belo Horizonte, meus pais não ficaram sabendo de nada. Casamos e de lá fomos de lua-de-mel na Bahia. Eu me lembro que quando acabou a recepção do casamento, meu pai, sem minha mãe perceber, pôs um pacote com 5 contos de réis, com este dinheiro eu comprei uma joia para minha patroa. Moral da história: vieram os filhos, a Andreia, hoje é advogada, depois veio o Dimitri, é engenheiro, depois de 12 anos veio o Cacau, o Oscar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em><strong>O que o senhor sabe da <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">revolução de 30</a> aqui em Três Corações? </strong></em></p>
<p>Em 1930 meu pai estava aqui sozinho, a família ainda estava na polônia. E meu pai se vestia de brim caqui e morava no Hotel Capri. Era um hotel com a janela baixa, e apareceu aqui uma ordem para matar um major Renato Paquet, lider da revolução. Um não conhecia o outro, mas este Paquet era do tamanho do meu pai e andava também de caqui. Quando foi no dia 12 de outubro de 1930, em plena revolução, a polícia de Lavras recebeu a ordem  de matar o major Renato Paquet. O que aconteceu: meu pai acabou de almoçar, chegou na porta do hotel e um atirador baiano, lá do alto da estação, com uma luneta telescópica, acertou uma bala nas costas dele. Ele caiu, aqui não tinha hospital, dois taxistas, botaram ele no táxi e atravessaram uma porção de fazenda e internaram meu pai no hospital regional de Varginha, ele ficou três meses lá, entre a vida e morte. Algum afobadinho mandou um telegrama para a Polônia, avisando a família que meu ai tinha morrido, eu me lembro que todo mundo vestiu luto, todo mundo ficou penalizado, deixou mulher e cinco filhos. De repente, veio outro, meu pai mandou telegrafar dizendo que tinha sobrevivido, que estava passando bem e que não demora ia sair do hospital. Depois que ele saiu do hospital o major Renato Paque ficou amigo dele, jantavam juntos. Este Renato Paque terminou a carreira como marechal e foi amigo do meu pai até morrer.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em><strong>O senhor sabe  história do Farturinha? </strong></em></p>
<p>Ele era magro, queixo pontudo, estilo fumador de cigarro de palha. Nervoso, qualquer coisinha ele dava murro. Ele morava no hotel ao lado da minha loja. O que aconteceu foi o seguinte, na época da política aqui em Três Corações tinha dois partidos políticos, cada um mais idiota que o outro. E um parente do Mauro Bonésio começou a escrever artigos metendo o pau no outro partido. Então mandaram buscar um jagunço, matador profissional, chamado Fartura para matar o jornalista, o jornalista chamava alguma-coisa Toledo. E num domingo, na saída da missa, o Farturinha chegou diante do jornalista, e meteu uma bala de calibre grosso na barriga dele, ele caiu e o Farturinha fugiu. Levaram o rapaz para o Hospital de Varginha, ele morreu e a cidade inteira acompanhou o enterro. Este Farturinha permaneceu foragido por muitos anos, de repente ele reapareceu, o crime já estava prescrito, ninguém tinha mais interesse, então esconderam ele numa fazenda e numa noite ele foi fazer uma fogueira e começou a esquentar, parece incrível, as balas que estavam na arma dele explodiram, ele morreu com o próprio revolver, ao lado da fogueira.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em><strong>O senhor lembra quando veio a EsSa para Três Corações?</strong></em></p>
<p>Antes da EsSa, aqui antigamente tinha o 14º RC. Era uma beleza. Tinha uma turma de cavaleiros que ia para Juiz de Fora e disputava tudo quanto era jogo e ganhava todo ano. Depois o presidente Dutra resolveu acabar com o regimento e com oum decreto dissolveu o 14º RC. Aí o prefeito Odilon foi ao Rio, procurou o general ministro da guerra e mostrou que o 14º  regimento fazia falta na cidade. Que era uma cidade dentro da cidade que precisava disso e tal. E convenceu o ministro da guerra a criar a Escola de Sargento das Armas. Situada no Realengo ela veio pra cá. E assinou o decreto. Menina, quando a tropa chegou a Três Corações, foi uma farra só. Artilharia, engenharia, infantaria, cavalaria, tinha tudo quanto é arma. A cidade ressuscitou. Naquela época o povo dizia: “Salve Três Corações/Cidade do meu tormento/Em cada janela uma puta/Em cada esquina um sargento” Cês conheceram o Renato? (Renato Ribeiro, poeta tricordiano) Publiquei muita poesia dele.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em><strong>Como foi a ditadura aqui em Três Corações?</strong></em></p>
<p>Você tem internet? Se você procurar o nome <a href="http://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&amp;q=isaac+boczar">Isaac Boczar</a> na internet você vai ter uma surpresa muito gozada. Lá consta: “Isaac Boczar, estudante judeu, suspeito de ser comunista.” <em>Suspeito de comunismo </em>naquele tempo dava cadeia. Eu quase fui preso. Tudo aconteceu porque um dia me levaram para uma reunião numa casa em frente à matriz e o dono da casa era um comunista que tinha saído da cadeia. Capitão Oliveira Castex, uma família importante daqui. E tinha um olheiro do exército tomando nota de todo mundo que entrava. Ele fez um relatório e colocou isto na minha ficha e está até hoje na internet.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em><strong>Onde acontecia o  movimento aqui em Três Corações?</strong></em></p>
<p>A famosa rua 40. A rua 40 era pra cima do hospital, onde havia o bar Gato Preto. Não adianta, a prefeitura muda o nome da rua e o povo continua chamando de rua 40. A fama dela era de rua do vício. Tudo quanto era prostituta tinha cabaré lá. Tudo quanto era bordel era na rua 40 e a mocidade todo final de semana ia pra lá. Era muito movimentada. Pai de familia geralmente não ia não. O dia que a policia fechou a rua 40 deixou muita saudade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em><strong>O senhor lembra da visita do <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Pelé</a> aqui em Três Corações?</strong></em></p>
<p>Se eu disser pra você, não vai acreditar. A tia do <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Pelé</a>, a  Mariinha, foi babá dos meus filhos. Eu conheci o <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Pelé</a> ainda de colo, o pai dele, o  Dondinho, era militar da EsSa. Quando o Pelé veio aqui na década de 70,  eu tentei tomar parte porque eu já escrevia no jornal, mas não cheguei nem a entrar na rua. Tava tudo bloqueado, tinha atirador em tudo quanto é telhado. A segurança foi um absurdo. Assisti ao jogo de futebol, mas fazer parte da festa da comemoração do Tri não consegui não. Ele jogou meia hora, deu três chutezinho na bola, parou de jogar, tirou a camisa e entregou para o prefeito.</p>
<p><em><strong>Então o senhor escrevia para os jornais, quando o senhor virou escritor e cronista?</strong></em></p>
<p>Foi uma coisa espontânea. Um dia eu tava sem o que fazer na loja. Dia de chuva. Vi um carroceiro subir a avenida puxando um cavalo pela rédea e a carroça carregada de pêra verde. E chovendo. Coitado do animal fazendo força pra subir.  E eu na porta da loja cigarrinho na boca olhando. Ai o carroceiro começou a bater no animal. O animal empinava, relinchava, e nada. Não saia do lugar. Um cara que ia passando viu aquilo e ficou revoltado. Chegou perto do carroceiro e disse: &#8220;Me empresta seu casaco&#8221;.</p>
<p>&#8220;Pra que?&#8221;</p>
<p>&#8220;Eu vou fazer o animal andar&#8221;.</p>
<p>Tirou o casaco dele e colocou na cabeça do animal e pegou pela rédea. O animal começou a subir a avenida e acabou tudo bem. Então quando chegou no alto o carroceiro virou para o cidadão e disse: &#8220;</p>
<p>&#8220;Muito obrigado, com um burro só eu não chegava aqui&#8221;.</p>
<p>Eu achei a história muito interessante e me pus a escrever sobre as coisas que eu via e aquilo saiu naturalmente. Eu publiquei em tudo quanto é jornal do sul de Minas. Mas aí, no ano de 2000 fui pra Bahia com toda família e deixei a casa toda fechada. Veio a enchente e inundou meu escritório desmanchou tudo, acabou com meu arquivo de crônicas e contos, acabou com meus documentos. Só salvou um livro que eu publiquei com 41 das crônicas. Foi só o que sobrou, 41 histórias.  Deve ter este livro na bilioteca.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em><strong>Do que o senhor tem mais saudade do passado?</strong></em></p>
<p>Há cinco anos eu tive um AVC. Então eu fiquei com as pernas ruins. Não consigo dançar. Cada vez que vou a academia fazer hemodiálise, eu tenho uma nostalgia do tempo que eu estava vivo. A turma tenta me consolar: &#8220;Você tá vivo! A cabeça tá boa!&#8221;  Mas não adianta. Eu era campeão de dança. Adorava dançar. Eu dançava em todo sul de Minas. Eu dancei em tudo quanto é salão de baile: Monteze, Tangará, Clube Três Corações&#8230; No alto da cidade tinha um barzinho, dirigido por um maestro Álvaro Arcanjo. No salão tinha duas portas, de um lado, as damas, do outro, os cavalheiros.  Todo mundo saía pelas duas porta e iam se encontrar nas bananeiras. Minha especialidade era tango. Modéstia à parte eu caprichava. O Tangará é onde fica o antigo Itaú.  O Montese era onde é o edifício Rio Verde, ali tinha havia um sobrado antigo.</p>
<p>Vou te contar. Pena que a minha validade está esgotando. Não dá mais tempo. O que eu conheço de Três Corações é para levantar defunto! Eu conheço a história de Três Corações, desde 1931 até 2011, tenho um bocado de chão.</p>
<p>O mais gozado eu escrevi mais de 600 crônicas de jornal, contei todas estas histórias, tudo baseado neste incidentes da vida real. Eu prometi mesmo pra muita gente, que na próxima encarnação, quando eu voltasse eu iria escrever a verdadeira história de Três Corações. Vale a pena, aqui em Três Corações acontecia cada coisa.</p>
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		<title>Faz falta a amizade, o abraço, na escola</title>
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		<pubDate>Mon, 02 May 2011 21:48:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Morais</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nasci em Monte Belo, fica perto de Muzambinho e a 64 quilômetros de Alfenas. Eu nasci em 6 de agosto de 1929. Meu pai era Manoel Antonio Rito e, minha mãe, Aurora Moreira Rito.  Meu pai era português e minha mãe era de São Paulo, mas era filha de portugueses também.  Meu pai nasceu em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://museudaoralidade.org.br/wp-content/uploads/2011/05/image-4.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-387" title="Teresinho Rito, foto de formatura do curso ginasial" src="http://museudaoralidade.org.br/wp-content/uploads/2011/05/image-4-128x188.jpg" alt="" width="128" height="188" /></a>Nasci em <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Monte Belo</a>, fica perto de Muzambinho e a 64 quilômetros de Alfenas. Eu nasci em 6 de agosto de 1929. Meu pai era Manoel Antonio Rito e, minha mãe, Aurora Moreira Rito.  Meu pai era português e minha mãe era de São Paulo, mas era filha de portugueses também.  Meu pai nasceu em 1901, eu acho, porque minha mãe nasceu em 1900 e era um ano mais velha que ele. Ele nasceu em Portugal, num lugar chamado Mogadouro, na divisa com a Espanha. Em 1911, me parece, a família dele veio toda pro Brasil.  Eles vieram pra São Paulo. Logo depois teve aquela gripe espanhola, em 1918, eu acredito. Morreram todos, só ficou meu pai. Ele ficou jovem, sozinho no mundo, sem ninguém.</p>
<p>Aí meu pai veio pra Poços de Caldas. E, naquela época, o transporte era quase todo feito no lombo do burro. Então ele e uns colegas iam em Lagoa da Prata pegar animais pra levar pra Poços de Caldas e pra São Paulo, de modo que ele virou tropeiro. Ele levava só a tropa, não levava carga não. A mercadoria dele era o burro. Quando eu era jovem, eu mesmo conheci um senhor mais de idade, e eu conversava muito com ele.  Ele dizia que levava toucinho salgado, no lombo de burro, de <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Monte Belo</a> pro Rio de Janeiro. Eu nem imagino quanto tempo levava.</p>
<p>Certamente, foi numa dessas viagens que meu pai conheceu minha mãe, lá em <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Monte Belo</a>. Poços de Caldas era importante na época, pois dali eles distribuíam  os animais. Minha mãe morava em Monte Cristo, perto de Monte Belo. Ela era de casa. Morava numa fazenda muito grande, muito boa. Quando eu nasci, a cidade era muito pequena. Hoje, não deve ter nem cinco mil habitantes. Na época, era um arraial. E tem uma coisa importante: na minha terra, não tem pobre. Tem cana de açúcar, fábrica de banha, fábrica de louça.  E lá é um monte com um riacho. É uma visão maravilhosa. É monte belo mesmo. Eu nasci com uma parteira e com um farmacêutico. Esse farmacêutico era italiano e formado em farmácia. Naquela época, era interessante: se a pessoa machucava, eles tinham na gaveta da farmácia a sangue-suga. Então punham ali no hematoma e a sangue-suga sugava o sangue todinho. Depois punham na cinza do fogão e ela vomitava o sangue todo.</p>
<p>Eu fiz o primário em Monte Belo. Tinha uma escola muito boa, o Grupo Escolar Coronel João Evangelista dos Anjos. Ele funcionava num salão.  Depois que terminei o primário, nunca mais entrei lá. Depois disso, meu pai administrava uma fazenda, e eu fiz os quatro anos do ginásio num colégio interno administrado pelos  padres franciscanos holandeses. Era o Ginásio São José, de Muzambinho.  Era colégio masculino, voltado pra <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">educação</a> que não temos mais hoje. De manhã, o padre batia palma e a gente tinha que acordar na hora. Todo mundo tomava banho frio e depois tomava o café. Todo dia tinha missa, antes das sete horas. Outro dia, conversando com alguém, eu disse que fui educado em colégio interno com os padres franciscanos holandeses.  Ele me disse:</p>
<p>- Não precisa falar mais nada.</p>
<p>Os padres tinham um cordão amarrado na cintura. De vez em quando, o cordão funcionava pra bater. Castigo era pouco. No domingo, depois do almoço, a gente podia sair até depois do matinê. O matinê começava às duas horas, e, de lá, todo mundo vinha embora.  Não era exigido acompanhante, nesse dia. Mas quem cometesse qualquer falta durante a semana não saía no domingo: ficava fechado. E também não se aceitava chamar o professor de você: era o senhor ou a senhora.  A escola ensinava a gente a ter classe, respeito, e hoje não tem isso mais.</p>
<p>Naquela época, os alunos aprendiam as atividades rurais na escola.  E lá você tinha tudo: escova de dente, creme dental, sabonete, roupa. Até o sapato a escola dava.  Quando o aluno chegava, recebia todos os livros, que já estavam no armário aos pés da cama. O material era todo marcado com uma letra bonita da dona Albertina. Não esqueço disso. A gente recebia o material, mas era pago dentro da mensalidade. Tínhamos cadernos, livros, e caneta era a pena, de molhar.</p>
<p>Estudávamos latim e literatura latina. Inglês e literatura inglesa. Espanhol e literatura espanhola. Francês e literatura francesa. A nossa turma conversava em francês no quarto ano ginasial. Literatura portuguesa de Portugal e portuguesa do Brasil. No primeiro ano do segundo grau, nós tínhamos uma noçãozinha de grego. Em geografia, nós estudávamos todos os países do mundo, cidades principais, montanhas, rios, produção. Tínhamos trabalhos manuais. Como tinha gente da zona rural, fazia cabresto, corda, rede e outros utensílios pra montaria. Tínhamos desenho a mão livre e desenho geométrico. Agora, olha o que fizeram com a nossa <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">educação</a>. Está tudo muito diferente.</p>
<p>O nosso uniforme era amarelo. Era uma calça, uma jaqueta com botões pretos e uma camisa branca por baixo. Tínhamos o grêmio social, com presidente, secretário e tudo o mais. Tinha a finalidade de educar, comemorar aniversário ou ainda tratar da morte dos poetas famosos ou de figuras da política. Tudo era comemorado. Estimulava a literatura, a arte, a música.  Tínhamos curso de música. Eu sabia música muito bem. O primeiro presidente do grêmio fui eu, durante um ano.</p>
<p>Eu saí do ginásio e meu pai não tinha condições de pagar colégio pra mim. Minha mãe teve que engordar um porquinho na porta da cozinha. Eu ainda lembro do meu pai levando o porquinho pra cidade. Era 1946, e, naquela época, tinha um tio meu, Arthur de Melo, que morava em Belo Horizonte. Quando terminei o ginásio, falei que ia pra lá e, com 15 anos de idade, enfrentei três dias seguidos de viagem. Hoje, a viagem dura três horas, mas, naquele tempo, era complicado viajar. Eu saía de Monte Belo num dia, à noite eu saía daqui de <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Três Corações</a> e ia amanhecer em Divinópolis. Quando eu cheguei aqui em <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Três Corações</a>, eu vi aquela igreja e achei a coisa mais bonita do mundo. Pra você ter uma idéia, a ponte da rodoviária ainda era de madeira. Naquela hora, nasceu amor por <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">Três Corações</a>. Em Belo Horizonte, eu trabalhava durante o dia e estudava à noite. Fiz o primeiro ano colegial daquele tempo. Eu trabalhava com o meu tio na loja de produtos farmacêuticos. Foi uma oportunidade muito boa. Estudei no Colégio Anchieta, que hoje é a Faculdade Newton Paiva. Foi lá que conheci o Paulo Neves, que foi o meu professor de Português.  Ele dava verbo intransitivo pra conjugar no imperativo. Na prova, se você tirava dois, tinha comentário. Uma vez eu tirei quatro e fiquei com vergonha de falar que era eu, por causa do comício que ele fazia.  As provas valiam cinco.<br />
Fiz apenas o primeiro ano colegial em Belo Horizonte. Era um colégio particular. A situação do papai tinha melhorado um pouquinho. Nesta época, a gente era obrigado a fazer prova oral. Hoje, os alunos acham que é castigo. Teve um fim de ano que eu estava louco pra ver minha mãe e meu pai, pois fazia um ano que não via os dois. As provas já estavam marcadas e eu comprei passagem no trem noturno, um dia depois da prova oral de espanhol. Naquele tempo, a gente ia dormindo no trem. Você escolhia o vagão normal ou a cabine com camas. Eu havia comprado a cabine, pois estava muito cansado porque era o fim do ano letivo. Mas, na véspera da prova, o que acontece? O diretor do curso foi atropelado e morreu. E a prova de espanhol, que era no dia seguinte, foi adiada. Perdi minha passagem, perdi meu leito. Eu fui falar com o diretor do colégio. O homem esculhambou comigo:</p>
<p>- O senhor é um imprevidente!</p>
<p>Aí eu expliquei pra ele a situação. Como é que eu ia imaginar que o homem ia morrer? Ele disse:</p>
<p>- Eu vou fazer o favor de te dar zero nessa prova! O boletim ainda está comigo! E está zero vírgula zero na prova oral de espanhol.</p>
<p>Mas eu vim embora!<br />
* * *<br />
Depois voltei pra Monte Belo e fiz o segundo e o terceiro colegial no Colégio Municipal de Alfenas. Depois do colegial, fiquei mais três anos em Alfenas, na faculdade. O curso de odontologia era feito em três anos. A faculdade era EFOA, Escola de Farmácia e Odontologia de Alfenas.  No ano que eu saí, ela foi federalizada. Sempre foi boa escola, desde o meu tempo. É uma das melhores escolas do Brasil, até hoje. Mas, naquele tempo, era diferente, porque o aluno era diferente. O relacionamento, a responsabilidade do aluno, tudo era diferente. Nós assistíamos aula de terno e gravata. Nunca um professor meu deu aula sem terno e gravata. Todos os sábados e domingos, os alunos de Odontologia e Farmácia iam passear na praça, sempre de terno e gravata. Nas festas do clube, o povo considerava muito os alunos. Se a gente ia tirar uma menina pra dançar, primeiro cumprimentava a mãe e o pai. Era chique demais da conta. Você levava a moça até a mesa e agradecia.  Era outro mundo. Não podia nem colocar a mão fora do lugar, e a gente conversava durante a dança. Tinha um baile da primavera que era a coisa mais bonita do mundo. Isto foi de 1948 a 1951. Eu  tinha 20 anos quando eu formei em Odontologia.</p>
<p>Quando eu saí da faculdade, o meu professor de técnica odontológica, Paulo Passos da Silveira, me ofereceu a cadeira dele. Disse que eu era uma pessoa de confiança. Mas eu falei que nunca tinha pensado em ser professor e indiquei um colega meu, o Mário, que virou professor em Alfenas. Então, eu comprei um consultório à prestação e fui trabalhar em Governador Valadares. Eu tinha ouvido falar que lá era bom pra trabalhar. Naquela época, Valadares não tinha nem luz elétrica direito. Eram só quatro horas de energia por dia.  No resto da noite, a luz era acesa com óleo. Eu cheguei na cidade de terno e gravata, sozinho naquele mundo. Fui passear na praça e passei em frente a uma loja que estava cheia de meninas e elas riram.  Passei de novo e elas continuaram rindo.  Na terceira vez, entrei e falei que estava meio perdido, que precisava de um lugar pra morar. Aí a moçada caiu na risada. Elas acharam que eu fosse do circo, porque tinha acabado de chegar um circo por lá. Aquele pessoal era da elite, e eu acabei entrando pra elite da cidade. Naquele tempo, havia uma separação muito grande. Mas eu estava com 21 anos, e achei lá muito violento.</p>
<p>Voltei pra Monte Belo e comecei a trabalhar como dentista. O pessoal da cidade fez uma associação pra fundar um ginásio na cidade. Naquele tempo, a <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">educação</a> era supervisionada pelos inspetores federais. Então fizeram uma reunião e o inspetor, que chamava Sebastião de Sá, veio a Guaxupé. Era um inspetor espetacular. E, durante a reunião, ele disse pra mim:</p>
<p>- O Senhor vai ser o diretor do colégio.</p>
<p>Eu esfriei todo.</p>
<p>- Deus me livre! Eu não quero, não entendo nada.  Não sei montar um currículo.</p>
<p>- Mas tem que ser o senhor.</p>
<p>Aí eu comecei a pensar. E ele disse:</p>
<p>- Minha secretária fica à sua disposição na inspetoria.  Tudo o que o senhor precisar, o senhor pode ir lá.</p>
<p>Eu resolvi enfrentar.  Isso já era na década de sessenta. Mas não tinha lugar pra fundar o colégio.  Então, meu sogro tinha  um prédio todo de tijolo aparente, de uma firma que estava pra fechar. E assim nós fomos começando. Terminava de contruir uma sala, começava a outra. Quando terminava uma sala, fazia uma festa. Conseguimos realizar aquele ideal, pela educação. E construímos o colégio.<br />
Então, à medida em que o tempo foi passando, eu fui estudando. Primeiro fiz Filosofia e História em Guaxupé, depois fiz Psicologia na faculdade em Três Corações. Tenho três diplomas, doze especializações e o mestrado. Mas, naquele tempo, em Monte Belo, tinha uma política terrível, com muita briga entre as famílias e entre os partidos da época, PSD e UDN. Então, nós quisemos pôr o nome de Ginásio Moderno de Monte Belo, pois assim não ficava nem municipal, nem estadual, nem particular. Em Muzambinho, por exemplo, tinha dois colégios. No Colégio São José, estudava o pessoal do PSD. No Colégio Estadual, estudava o pessoal da UDN. Até a igreja era separada. Pra você ver como o mundo é muito pequeno: no ato de assinatura do governador, criando o colégio, eu era o presidente da Câmara da minha terra. Estava o prefeito, eu, o doutor Manoel Taveira de Souza, que era o secretário do interior e o governador, doutor Magalhães Pinto. Nós fomos pra sala do Governador e, no ato de assinatura, quem era o chefe de gabinete dele? O Paulo Neves. Ele olhou pra mim e disse:</p>
<p>- Eu te conheço.</p>
<p>- Lembra do quatro que eu tirei na sua prova?</p>
<p>- Estamos em casa.<br />
* * *<br />
Quando eu estudava na faculdade de Guaxupé, foi um tempo ótimo, porque tinha <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">professores</a> da PUC de Campinas e da Unicamp, já que Campinas fica perto dali. O Rotundaro, o Alaor e o José dos Santos eram <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">professores</a> aqui em Três Corações e iam de carro pra Guaxupé todo fim de semana, pra fazer o curso de Filosofia. Quando eu estava terminando a faculdade, meus filhos estavam crescendo e eu pensei: &#8220;eu vou embora daqui&#8221;. Queria ir pra Anápolis, Goiás, porque tinha um conhecido que era Secretário da Fazenda por lá. Mas quando eu falei isso, os três não deixaram de jeito nenhum.</p>
<p>- Você vai é pra Três Corações.</p>
<p>Eu já gostava daqui e falei:</p>
<p>- Vou, mas se eu prestar concurso e passar.</p>
<p>Então, abriu o concurso no Estado. Fiz, passei e vim pra cá em 1969. Os americanos chegaram lá na lua e eu aqui em Três Corações. O concurso era pra professor do Estado do primeiro grau e foi danado. Tinha uma prova oral, perante uma banca da UFMG, na Faculdade de Filosofia de Guaxupé. O negócio era complicado, não era moleza, não. Naquele tempo, você tinha que prestar o concurso pro primeiro grau e, só depois, pro segundo grau. Só que, na época, não usava essa nomenclatura. Usava ginasial e colegial. Hoje emendaram tudo. Antes era primeiro, segundo, terceiro e quarto ginasial, depois primeiro, segundo e terceiro científico. E, antes disso, já existiu a opção entre clássico e o científico. Quando eu entrei no colegial, acabou isso.</p>
<p>Quando passava no concurso, você recebia um certificado bem específico pra qual matéria e qual ciclo você podia dar aula. O primeiro ciclo correspondia da primeira à quarta série do ginásio e o segundo, do primeiro ao terceiro ano do científico. Eu comecei aqui, em Três Corações, lecionando pro ginásio. Nessa época, a inspetoria central funcionava em Juiz de Fora e tinha representante aqui em Três Corações. Nas férias, aquele professor que não tivesse credenciamento, não tivesse curso superior, fazia um mês de aula dentro da especialidade e podia lecionar. Era o exame de suficiência. Mas, se não fossem aprovados nesse curso, não podiam lecionar. O controle era sério.</p>
<p>Aqui tinha dois inspetores. Eles supervisionavam os <a href="http://museudaoralidade.org.br/blog/tag/%post_tag%">professores</a> e era tudo inspecionado.  Eu dava aula de história. Aqui era uma máquina de dar aula de história. Tinha a Oneida, a Mônica, a Terezinha Fonseca e eu. No período do regime militar, houve uma intervenção no colégio. Veio pra cá o professor Amauri, que dava aula em Alfenas, pra ser diretor. Ele foi nomeado direto pelo Secretário de Educação. Ele me falou:</p>
<p>- Você vai tomar conta do ginásio pra mim.</p>
<p>Eu falei:</p>
<p>- Não vou, porque minha mulher disse que, se eu me envolver com direção de escola, ela me larga.</p>
<p>Aquilo era um abacaxi danado, e eu não quis saber. Mas ele foi lá em casa, conversou com minha mulher e ela disse:</p>
<p>- Vai.<br />
Então, ficou o Amauri como diretor e eu, responsável pelo turno da noite, que era barra pesada. O Erasmo ficou como coordenador do turno da tarde e o professor Ribamar, do turno da manhã. O Amauri falava que o Colégio Estadual de Três Corações nunca mais teve e nunca mais vai ter um grupo de professores como teve. Pra quem gostava da ditadura, na época, era uma beleza. E era bom, porque tinha uma disciplina danada. Os alunos estudavam Educação Moral e Cívica, era obrigado a ter em todos os anos. Essa matéria dava toda a estrutura de governo e ia aprofundando, procurava naquilo a lógica de fazer saliência aos militares. Estudava as revoluções no Brasil, e foram muitas.</p>
<p>Naquele tempo, nós tínhamos 2.400 alunos, pra mais. À noite, nós tínhamos uma turma de alunos da ESA.  Eles vinham pro curso colegial, ou segundo grau. E, nesta época, resolveu-se que todos os alunos deviam desfilar no 7 de setembro. Imagine: todos os alunos! Colocar os 2.400 alunos em forma! Foi difícil, mas conseguimos.No turno da noite, tinha alunos pobres e ricos misturados, e alguns alunos da EsSA também. O problema disso é que os alunos ricos queriam ter mais regalias que os pobres. E o pobre se sentia humilhado. Era difícil. O primeiro problema meu foi com respeito a uniforme. E aí o diretor era o doutor Ubirajara Lopes Vieira. Ele era um cara oito ou oitenta, com ele não tinha conversa. Inclusive, ele mandava medir as saias das moças pra ver a que altura estava do joelho. Ele era pulso firme.  E falava com a gente:</p>
<p>- Vocês é que são os diretores, são os responsáveis por seus turnos, façam suas coisas direito. Porque se fizerem coisas erradas, eu vou ter que defender vocês, e defender coisa errada é muito difícil.</p>
<p>No meu turno, eu pus ordem. O aluno que era repetente não estudava mais no Colégio.  De primeira limpeza, foram 34 embora. Vinham fazer a matrícula ou pegar uma carteirinha pro cinema e eram recusados. Teve afilhado do prefeito que foi até o Delegado em Varginha. Mas não entrava, não, porque ocupava o lugar dos outros. O doutor Ubirajara era uma pessoa do coração muito bom.  Uma vez, ele veio conversar comigo:</p>
<p>- Não quero menino nenhum sem uniforme.</p>
<p>- Mas como exigir uniforme de menino pobre?<br />
- Vai lá no Zé Naback e compra uniforme pra quem precisa.</p>
<p>Nós tínhamos duas educadoras espetaculares: a Maria da Glória e a Ivani. Elas fizeram o levantamento socio-econômico dos meninos. Nós fizemos mais de 200 uniformes. Foi um dia que eu nunca esqueci. Você precisava ver a satisfação daqueles meninos. Nunca tinham ganhado nada. E agora tinham uniforme igual aos outros. Educar é isso.</p>
<p>Eu fiquei como diretor do turno da noite por 10 anos. Depois, foi lançada, por um governo, uma seleção competitiva interna. Se você era engenheiro e professor, podia fazer exame pra engenharia do Estado. Eu, como era dentista, fiz o concurso e passei. Fui trabalhar fora da área de ensino e por isso deixei a escola. Na Universidade, eu ingressei da seguinte forma: o professor José Maria Maciel pediu que todos os dentistas mandassem o currículo pra ele. O seu secretário, Muriel, selecionou os currículos daqueles que podiam lecionar. Eu tinha duas cadeiras na Universidade de Campanha. Lecionava História e História do Brasil. E tinha três cadeiras na faculdade de Odontologia em Lavras: dentística, material dentário e dentística clínica. Então eu fui selecionado e comecei a lecionar na faculdade daqui. Deixei a faculdade de Lavras, na ocasião.</p>
<p>Houve uma época em que o Estado não oferecia o atendimento odontológico nas escolas, mas nós fizemos um trabalho muito bom com meus alunos da Universidade. Em conjunto com o Dr. Francisco, da Seccional de Saúde de Varginha, e com dinheiro de rifas, colocamos um consultório no Estadual, um no Polivalente e um numa escola na saída pra Cambuquira, pros alunos trabalharem.</p>
<p>Falam que sou muito exigente. Eu não aceito um aluno meu chegar atrasado na aula. Com 43 anos que dou aula, eu nunca cheguei atrasado numa aula. Eu falo pros meus alunos:</p>
<p>- Eu gosto tanto de vocês que eu não quero que vocês percam nem um minuto de aula.</p>
<p>A educação de 20 anos atrás é muito diferente da de hoje. A mocidade de hoje precisa de muito carinho e muita compreensão. Hoje, você vai no computador e tem tudo na mão. Não tem carinho, não tem diálogo. Por exemplo, os meus alunos da Odontologia mostram uma necessidade muito grande de carinho, de amizade. Todos eles, quando chegam, pegam na minha mão na hora de entrar na aula e, na hora de sair, me abraçam. Acho que educar é isso. Hoje, meus alunos trazem os filhos pra me conhecerem. Imagina o que vira meu consultório, é um choro só. Conclusão:  eu analiso isto daqui, como é importante o relacionamento na escola, partindo dessa minha visão. É tão bom ver as pessoas felizes. O aluno tem que conversar e rir. Quando não ri, você pode saber que falta alguma coisa. Faz falta a amizade, o abraço, na escola.</p>
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