“Quem cria muito filho assim trabalha muito”
Iolanda Biavati Silva, de Luminárias (MG)
O meu nome completo é Iolanda Biavati Silva, nasci em 16 de outubro de 1933. Eu tive quatorze filhos, só que eu tenho 13 vivos, porque um morreu logo que nasceu. São 6 homens e sete mulher. Quem cria muito filho assim trabalha muito.
Eu nasci na roça, no município mesmo, num lugar que chama Palestina. Minha mãe era Eudóxia Biavati, e meu pai, José Biavati. Meu pai era professor na roça. Ele não era daqui, foi nascido e criado em Ouro Preto, que naquele tempo era capital mineira. Ele veio pra cá já moço, morou uns tempo em São João del Rei, depois foi pra Lavras e depois que ele veio pra cá. O cunhado dele, Ubaldino do Amaral, era farmacêutico, formado em Ouro Preto.
Depois de mocinha que eu saí da roça e vim pra cidade. Eu não tenho o curso ginasial porque naquele tempo não tinha o ginásio aqui. Eu sempre tive vontade de estudar, mas não tive oportunidade. Eu dei aula no Grupo Escolar, mas foi por pouco tempo. Depois que eu casei, tive que parar.
A casa onde eu nasci era uma casa simples, de gente pobre. Não era uma casa boa, porque naquele tempo não tinha mesmo. Hoje até na roça tem umas casas bem boa, com luz, com água, com tudo. A gente pegava água numas latas. Não tinha conforto nenhum.
Hoje não tem mais as mesmas brincadeiras de criança. A gente dava a mão, fazia roda e cantava. Fazia umas bonecas de pano, fazia os rostinhos delas, fazia os olhos, a boca. Minha mãe e minha tia fazia. Fazia roupinha, tinha aquele tanto de roupinha. Era uma tristeza, a gente ficava querendo fazer muita roupinha, mas antigamente nem retalho, como tem hoje, tinha. Quando a gente arrumava um retalho, ficava na maior alegria.
A minha mãe também foi professora na roça muito tempo. Ela e meu pai dava aula na Palestina, numa casa separada da fazenda. Era uma casa enorme, alta, tinha doze cômodos. Era a maior dificuldade. Tinha uns caderno baratinho, de poucas páginas, e tinha uns livro. Meu pai arrumava muito livro usado lá em Lavras e trazia pras criança. Usava caneta com tinteiro. A tinta ficava num vidrinho. Então tinha que enfiar a pena, mas não era pena de galinha não, era uma pena que a gente comprava. Se errasse, tinha que ficar errado. Então a gente fazia de tudo pra não errar, porque se errar ficava feio. Tinha umas pedras também, a gente falava lousa. Naquilo tinha uns lápis do mesmo material da lousa. Então escrevia assim, apagava, escrevia, apagava, escrevia, apagava. Devia ser de ardósia, porque ardósia é que escreve. Hoje é mais fácil, as crianças tem televisão, rádio, caderno caro. Ia muita gente nas aulas. Mas não tinha ônibus, que é a maior facilidade. Antigamente, as pessoas ia a pé pra estudar, mesmo as que morava longe. Em certos lugar não tinha escola, aí as pessoa ficava analfabeto mesmo. Hoje não.
Tinha professora mais mansa, outras mais brava. Depois que eu vim estudar em Luminárias, as professoras daqui era tudo gente formada, sabe? A minha professora chamava dona Juraci Gouveia, e tinha outra dona que tinha o apelido de Zizinha. Muitas pessoas estudaram aí com elas. Elas davam aulas de tudo. Era duas salas grandes, onde hoje é o posto de saúde. Uma professora dava aula na sala de baixo, outra na de cima. No meu tempo já era misturado os meninos e as meninas. As matérias era matemática, português, história do Brasil e história geral. A professora tomava a lição. A gente tinha que ir lá na frente e ler pra todos os alunos. Era os livro manuscrito. Já ouviu falar no manuscrito? Era um livro copiado, já vinha escrito com a caligrafia de quem copiou. Eu acho que hoje só tem um manuscrito aqui em Luminárias, no museu da escola. Agora história do Brasil era outra coisa. O livro chamava Terra Mineira. Tinha coisas das cidades de todo o estado de Minas. O manuscrito era o mais custoso de estudar, porque a cópia era feita a mão, de diversos escritores.
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Antigamente as pessoas tinha mais respeito, faziam abstinência de carne na quaresma. Tinha pessoas que tinham muito medo de assombração. Eu não, porque meu pai foi criado em cidade maior, ele não acreditava nessas coisas. Nem ele nem minha mãe, de modo que lá em casa ninguém acredita.
Tinha pessoas que tinha muito medo de sair a noite, ainda mais que não tinha luz. Ninguém saía na rua não, tinha medo. Eles falavam que lá no cemitério saía as almas tudo! Eles falavam que tinha mula sem cabeça, mas não sei como é que ela andava se não tinha os olhos!
Eles falam que um homem morreu lá no Lavarejo e ficou o corpo. Diz que aparecia pros outros. Lá é uma roça mesmo. Hoje acho que tem pedreira. A gente ouvia essas histórias porque não foi no meu tempo. Aqui tem uma igreja que é muito antiga, a Igreja Velha. Então eles falavam que as almas aparecia lá. Lá era o cemitério dos escravos e que quando a gente passava perto ouvia uns barulho. Mas tudo é crendice dos povo. Ouvia os escravos gritar, gemer. Eu morei lá pra baixo. Ficava na rua até meia noite e a gente nunca viu nada. É, as pessoas que acreditam vê muita coisa, mas eu não acredito.
Nas festas, os pessoal da roça enchia o carro de boi de colchão, umas quitandas, doce, umas coisinha assim e trazia. Minha mãe fazia muita quitanda, muito doce. Antigamente, não tinha máquina de socar arroz, não. Era tudo no pilão. Fazia então, um mês, dois meses, a gente preparava tudo. A gente quase morria de tanta canseira, de tanto socar arroz. Olha só que dificuldade! A festa dura uns três, quatro dias. Minha mãe era costureira lá, fazia até terno de homem. Fazia aqueles balaio de broa também. Então, onde a gente morava, tinha uma senhora, dona Marieta, esposa do seu Nhonhô. As duas era muito amiga. A mamãe ia lá na fazenda dela ajudar a fazer quitanda e depois fazia as dela. A dona Marieta era daquelas fazendeira antiga, gostava das coisa muito bem arrumada.
Tem uma história: a minha avó, Maria Biavati, gostava muito de fazer fogueira pra Santo Antônio. O ano inteiro ela aprontava pra aquilo. Ela ficava comprando os mantimentos pra fazer as quitandas no dia de Santo Antônio. A banda de música ia lá, porque o pessoal era quase todo mundo filho, neto, gente nossa. Então tocava na fogueira dela. E lá tinha um cachorro, que chamava Jolim. Esse cachorro tinha muito medo de foguete. E ela comprava foguete pra soltar nas fogueiras. Lá tinha um armário grande, igual os de guardar louça, hoje. Então ela fazia as quitanda, bolo, rosca, essas coisa, e punha tudo lá. Queimava fogueira e a banda de música tocava e todo mundo gritava: Viva Santo Antônio! Um certo dia, numa fogueira lá, ela soltou os cachorros porque eles tinha medo dos fogos. E o cachorro, sem ninguém ver, entra pra dentro do armário e acabou com as quitanda tudo! Mordeu nos bolo, nas rosca. E as rosca, dava um trabalhão pra fazer! Não comprava pronto não, era feito em casa mesmo. Foi o maior sacrifício.
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Aqui em Luminárias, tinha três bandas: a do Sinhô, a do João Fonseca e uma dos pretos, os Viturinos, que morava atrás da serra. Era todo mundo preto, até a cantora. Eles sabia música mesmo. A banda dos Viturinos foi a primeira banda, a cantora chamava Maria Viturino.
Antigamente, na Igreja Velha, tinha uns banco separado e cada um tinha seu dono. E os banco era cada um de um tamanho, o do meu avô era baixinho. Ele chamava Joaquim Basílio Furtado. Era o bispo dom Inocêncio que rezava a missa. O bispo era um alemão, muito velho, não tinha paciência. Agora o Padre Bernardo, de Campanha, tinha uma paciência!
Nossa Senhora, na festa de Julho a gente trabalhava! Criava galinha e vendia num preço bão, sabe? Eu já bordei muito pra fora. Você conhece Ponto de Cruz? Pois é, eu fazia muito. E não tinha pano próprio, era bordado fio por fio nos pano. Fazia muito pra Três Corações.
Eu viajava muito sozinha quando eu era solteira. Viajei muito pra Alfenas, Machado, e naquela época não era costume mulher viajar sozinha. Pegava o trem lá em Três Corações e ia lá em Machado. Quem usava calça comprida era moderno, e eu usava muito. Nas outras cidades já usava. Minha irmã, Ângela, começou a usar, aí eu comecei também. Eu era uma mocinha muito comportada, muito de respeito. Pra namorar, nem chegar muito perto podia. A gente fazia o footing, que era andar em volta da praça. Os moço ficava parado e as moça andando. Aquilo que era o namoro.
Meu pai era um homem rígido, muitas coisas ele não consentia. Pela época, ele era um homem muito instruído. Papai lia muito jornal. Tinha um fazendeiro, o seu Nhonhô, que assinava o jornal, lia e mandava pros alunos lá da roça levar pro papai. A gente morava lá na roça, e a mamãe dava aula lá. Então a mamãe fez promessa. O dia que terminasse a guerra, ela vinha com os alunos dela lá da roça pra rezar um terço na ponta da serra. Era um morro alto, não tinha caminho, nós subimos no meio do mato pra rezar o terço lá em cima. E as criança gostou muito.
Na guerra, foi um senhor daqui, Tomé Bandeira. Teve um que tinha o apelido de Lelé, também foi pra guerra. O Vicente Procópio e outros dois foram e ficaram na guerra até ela acabar. Naquele tempo a guerra não é mais como é hoje, era corpo a corpo. E o povo daqui foi num Regimento de São João del Rei. Foi muito triste. Quando eles voltaram, foi uma festa, onde hoje é o Monumento dos Pracinhas. Antigamente, ali era um campo de futebol. Então comemorou ali, o povo foi tudo e teve banda de música.
Meu pai era prático de farmácia, ele veio de Ouro Preto pra trabalhar na farmácia com meu tio Ubaldino do Amaral, que era formado. E ele entendia muito de farmácia, fabricava muito remédio, sabe? Então ele ajudava muito o povo, fazia aquele xaropinho, aquelas coisas.
Quando neném nascia, era muito sofrimento. Tinha as parteiras. Hoje ninguém mais ganha o neném aqui. Tinha muitas pessoa que precisava de cesariana. Tinha muita mulher que morria aqui. A primeira mulher do meu pai morreu. Ela tava esperando neném, o povo que entendia falava que precisava de cesariana, mas não teve jeito de levar. Ficou aí e morreu. O irmão dela era médico formado, doutor João Lacerda, de Lavras.
Tinha um dentista aí que não era formado, era prático, mas tratava os dentes de todo mundo. Ele tirava os nervos dos dentes. Era o seu Maurício Vilela. Ele arrancava os dentes das pessoas, mas naquele tempo já tinha anestesia.
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A história da luz na serra não foi no meu tempo, era muito antigo. Diz que lá no alto da serra tinha um lajeado branco de pedra. E nesse lajeado corria uma aguinha. E o povo falava que, quando tinha lua, lá brilhava. Isso é uma versão. A outra versão é que foi por causa de procissão luminosa. Aqui não tinha luz e o pessoal fazia umas lanterna assim: pegava papel de cor, punha vela dentro e saía pra rua na procissão. Então, uns achava que era procissão, outros achava que era a água que brilhava em noite de lua cheia. Eu fui lá na serra, não vi a menor diferença.
Antigamente, o que tinha mais pra comer era carne, porque as pessoas engordava porco nos quintal. Depois, passou a ter uma turma que vendia carne nas casas. Não tinha açougue, né? Antigamente, dava trabalho comprar um pedaço de carne. Não tinha luz, não tinha geladeira. Cozinhava as carne, por exemplo, partia uns pedaço grande, cozinhava e punha nas latas cheia de gordura. Os porco tinha aquela gordura, então colocava a carne ali e ela não estragava.
Nós trazia o açúcar de fora. Teve uma vez que foi racionado o açúcar, então não vinha pra cá. Aí tinha uns engenho que fazia açúcar, mas não saía branquinho não. Saía amareladinho. Pra fazer, moía a cana, depois punha naquelas tacha grande de cobre e ia apurando, apurando até virar açúcar. E vendia pra muita gente. No racionamento de açúcar, esses engenho trabalhava dia e noite. Quando é um engenho bom, fazia um açúcar bem clarinho. Tinha um tio meu que fazia, num lugar chamado Atrás do Morro, era nesse engenho que meu tio trabalhava.
Não tinha a Igreja Nova. Eu devia ter um nove anos quando mudei da roça pra cá. Aí, a cidade já tava mais desenvolvida, porque já tinha o Grupo Escolar. Era lá embaixo, onde é a Casa da Cultura hoje. A cidade era lá pra baixo, aqui pra cima não tinha nada. Aqui nessa rua, era tudo mato.
Em Luminárias tinha um cinema antigo. Tinha um homem casado com minha tia, era um homem muito moderno. Ele era daqui mesmo, não era de fora. Essas coisas diferentes tudo ele fez aqui. Fez máquina de limpar arroz, máquina de limpar café, cinema, armazém geral. Ele tinha um caminhão pra buscar as coisas, na época ninguém mais tinha. Ele foi um dos pioneiros daqui de Luminárias, chamava Zé da Pinta. Aqui não tinha luz. Ele fez um motor, inventou uma máquina que acendia a luz no armazém dele. Ele pôs a Luz lá embaixo, na Igreja Velha lá. Foi tudo por conta dele. Ele era muito inteligente. Ele era casado com a irmã da minha mãe, que a gente chamava de Nana.
Meu marido, Hélio Silva, trabalhou na prefeitura. Ele tinha uma oficina de carpintaria, era marceneiro. Ele fazia móveis, muitas coisas. Ele não era carapina não, o carapina fazia mais era carro de boi, conserto de carroceria.
Aqui fazia açúcar de raiz. As planta medicinal nasce por aí. A gente pegava um monte de planta e misturava com açúcar, de modo que a coisa da planta passava pro açúcar. Servia pra pegar menos resfriado, e pra memória também. A gente comia, era gostoso. Não sei se era crendice, mas tinha muito remédio caseiro.
A Congregação das Filhas de Maria tinha só moça solteira. Vestia de branco com uma fita azul no pescoço. Tinha reunião com o padre, a gente cantava na igreja. Fui até quando eu casei, com 21 anos.
Desde pequena, faço novena às terças-feiras, foi minha tia que começou. Nunca falhou uma terça. Tinha uma menina que chamava Ruth, era minha prima. A festa de Santo Antônio era minha tia que organizava. Ela chamava Maria do Sinhô. Ela ficou famosa porque era muito boa com o pessoal daqui. Levava o Santo Antônio para a procissão, depois celebrava missa. Aí depois fazia barraquinha e o dinheiro ia pra Conferência São Vicente de Paulo. Mesmo quando eu morei em Três Corações, eu vinha toda terça-feira pra rezar pra Santo Antônio.


4 comentários para ““Quem cria muito filho assim trabalha muito””

Que orgulho ver minha Vózinha aqui! Parabéns Paulo e Andressa pelo excelente trabalho! Abraços.
Grande Saulo, obrigado pela presença. Apareça sempre! Abraço
Fiquei emocionado com o relato.Sou neto De Ubaldino do Amaral. Moro em Porto Alegre/RS.
Descobri os relatos de Yolanda recentemente.Espero por mais.Sou primo do gaúcho Ubaldino.