Eu mesmo já achei ouro aqui em Luminárias
Meu nome é Geraldo Pedro Terra. Nasci em 29 de junho de 1911, num sitiozinho pequeno na Barra. Meus pais são Manoel Josino Terra e Ana Isabel de Oliveira. O povo chamava meu pai de Neco. Nós era nove irmãos. Morava na roça, depois com um ano mudamo pra cidade, que naquele tempo era arraial.
Quando eu era menino, aqui batia peteca, jogava bete. A gente amarrava um sabugo no braço, punha no chão em rodava em volta dele. Depois tentava correr, mas não conseguia porque ficava tonto, e caía no chão.
Eu tive aula com o professor Antônio Romualdo Fábregas. Eu não era bagunceiro, bangunceiro era o Juca da Mariquinha. O professor pôs ele de castigo no banco macho. Era um banco sem encosto. O Juca da Mariquinha dormiu no castigo. Então, o professor Romualdo trouxe uma corda e mandou amarrar o Juca na cadeira. Aí o menino acordou, caiu do banco e gritou: “qualé o fedaputa que me amarrou aqui?” O professor tinha uma varinha de bambu pra bater em quem fazia bagunça. A escola era separada, pra um lado era das meninas, pro outro era dos meninos.
A cidade hoje tem mais do dobro do tamanho que era. Conhece a Igreja Velha? Era lá que tinha a cidade. Aqui tudo era mato. A Praça dos Expedicionários era o campo de futebol de terra. Daqui pra serra era tudo capoeirinha, aquele matinho baixinho.
Eu casei na Igreja Velha. Minha mulher chamava Maria Silva Terra. Tive um casal de filhos só.
Antigamente, tinha um padre que morava aqui, era o Padre Ivo. Eu era criança nessa época. Tinha também o padre Biscardi. Eu pegava um balainho que tinha lá em casa, enchia com esses tomatinho pequeno e azedo, e vendia por um tostão. O padre gostava de tomar esse tomatinho com leite. Punha o tomate no copo, enchia de leite, tapava com jornal e ele bebia depois. Ele morava em frente à Igreja Velha e não era brasileiro.
Quando era criança, no almoço fazia angu, arroz e carne de porco. Não conservava comida, porque não tinha geladeira. Quando fazia, comia no dia, até acabar. Não tinha geladeira. Se alguma coisa ficasse de perder, perdia.
Nas casa, usava luz de querosene. A gente falava lamparina. Tinha também luz do azeite de mamona, que põe na candeia. A candeia tinha um buraco, onde punha um pedaço de pano pra servir de pavio. Água, a gente pegava no córrego. Tomava banho na bacia, com sabão preto. O sabão feito de torresmo.
A festa de 16 de julho é a festa de Nossa Senhora do Carmo. Aqui já teve a Festa de Cavalhada. Era uma espécie de uma guerra, tinha os mouros e os cristão. Saía uma turma de um lado e outra de outro a cavalo. Eles vestia uma roupa diferente, bonita, de veludo. Eles disputavam e um tomava a rainha do outro. Eles montavam uns cavalos gordo, bonito, bem tratado. Não tinha cavalo feio não. Eu era pequeno ainda e essa festa acabou faz muitos anos. Foi um ano ou dois só que fez aquilo, depois acabou. Nunca mais fizeram.
Ia na missa todo domingo. Eu morava na roça, na tal da Água Santa, e costumava vir de lá. Era quase meia légua de distância. Vinha a pé, não precisava vir de carro de boi. Papai me falou uma vez que veio um homem com uma enfermidade na perna. Ele andava de muleta e fez uma barraquinha lá na Água Santa. Ficou lá uma semana, bebendo daquela água e banhando. Saiu de lá são, curado. Uma vez eu comprei uma lata, daquelas de 26 litros de querosene. Fui lá, apanhei um tanto d’água assim e levei pra casa. Deixei ela em cima da mesa da sala. Quando vi, a lata suou tudo por fora. Ficou cheio de bolinha. Uma coisa medonha. É impossível, parece que você não acredita, mas é a pura verdade. Na altura da água, a lata por fora suou. Eu fui, chamei a mulher, e falei: “olha bem pra você ver!” Por fora da lata tudo, tava aquelas bolhinha tudo d’água, pertinho umas das outras assim. Coisa impossível, né?
De primeiro, passava muito tropeiro aqui. Tinha o seu Mané Carneireiro. Era um sujeito de Portugal, que vinha comprar carneiro aqui. Enquanto ele num comprasse muito carneiro pra levar ele não ia embora. Agora você já pensou? Ficava aqui a semana inteira, às vezes até mais, comprando carneiro dessas fazenda. Quando tinha uma tantada boa, aí levava pra Portugal. Eu nunca cheguei a vender carneiro pra ele não.
Lá na roça a gente plantava milho, feijão, arroz. A gente colhia quase a conta do gasto. Às vezes sobrava um cadinho de arroz, um cadinho de feijão, a gente costumava vender. Engordava porco, era só pro gasto, se sobrasse a gente vendia. Roupa, mamãe mesmo é que fazia pra mim. Depois que eu casei, a mulher fazia pra mim. O pano era comprado aqui mesmo, tinha uma vendinha aí que vendia.
Antigamente as estrada era tudo de terra. Pra ir pra Lavras ou pra Três Corações era a cavalo. Num tinha negócio de bicicleta, não tinha carro, não tinha nada. Eu lembro quando entrou o primeiro carro aqui. Eu era rapazinho ainda, era o carro dos tal de Moreira. Depois um moço comprou o carrinho, me parece que era um fusquinha, era um carro pequeno. De primeiro era tudo a cavalo, passava aonde fosse. E tinha carro de boi também. Hoje você vê carro com quatro ou seis boi. De primeiro era dez, doze boi, carregava até 50 balaio. Era carro grande.
Peixe tinha muito, hoje quase que não tem. Nós ia de noite no rio, cercava a barra, fazia rede, passava ela, fechava o rio e deixava. Quando era de manhã cedo, os peixe vinham no rio e ficava preso na barra, nós passava outra rede por cima, depois passava no meio e pegava. Uma vez eu fui cercar uma barra, peguei dez dúzia de curimatã. A gente vendia um bocado, comia, dava pros outros. Era demais, tinha que repartir pra turma, de parte igual.
Eu morava num sitiozinho pequeno, de um alqueire e pouco. Fazenda, eu morei quando eu mudei pra estação de Carrancas, chamava Jaguari. Eu fui lá pra panhar café pra um fazendeiro e morei lá cinco anos. Em 54 eu voltei pra cá. Já tinha o nome de Luminárias. Meu avô, Antônio Manoel Terra, e minha avó, Rosalina de Mesquita, tudo era daqui de Luminárias. Não tem ninguém da minha família de fora não. Minha avó era arteira. Meu avô também. Uma vez ele amarrou dois cavalo pelo rabo. Acabou que os cavalo foi dando coice um no outro, até que arrancou o rabo de um.
Nós fazia Judas com roupa velha e enchia ele de palha, ficava como se fosse uma pessoa. Fazia verso, colocava o papel no bolso do Judas, na sexta-feira da paixão. Aí a gente colocava na porta da casa da pessoa, na hora que ela abria, o Judas caía em cima dela. E depois nós queimava o boneco.
O Anésio era curador, morava aqui na minha rua. Tinha o Polino também. E o Joaquim Basílio era meu tio, era meio curador, benzia também e fazia remédio. Tinha remédio de erva cidreira, hortelã, funcho, tudo da horta. Quando ficava doente, às vezes fazia uma promessa pra Nossa Senhora Aparecida. Aí pegava um tostão e colocava no pé de Nossa Senhora. Qualquer coisa que havia, pegava cem réis e punha lá.
Antigamente, dinheiro não tinha, era custoso. Você trabalhava na roça e ganha um mil-réis só! Hoje é um cruzeiro, né? Naquele tempo era mil-réis. Acabou o tostão, acabou tudo! Você conhece o que é um tostão? Não conhecem réis não? Vou te mostrar cem réis.
Antigamente, dinheiro era muito difícil, quase ninguém tinha. Tudo era na base da permuta. Quase que não comprava nada, porque plantava de tudo. Açúcar a gente comprava. Você sabe o que é engenhoca? Era duas moendinha pequena, a gente punha a cana nelas e tocava, fazia caldo daquela cana. Costumava beber café com aquilo, ao invés de adoçar com açúcar, adoçava com caldo. Falava garapa. Aí punha aquela garapa no fogo, deixava ferver, punha o pó de café e aí passava no coador. Eu achava gostoso.
Eu mesmo já achei ouro aqui em Luminárias. Foi no córrego onde eu morava, lá na Água Santa. A gente só tirava com a cuia. Cavucava lá por baixo, punha dentro de duas cuia, ia passando até sair as areia tudo. O resto era o ouro. Ficava duas, três pedrinha de ouro, a gente tirava aquilo e guardava. Quando eu mudei da estação de Carrancas, perdeu. Eu num sei o que me deu na maluca de cavucar lá um dia. Ouvi falar que ouro dava no cascalho nas beira do córrego. Eu fui, entrei lá na água, comecei a cavucar lá por baixo, tinha um punhadinho. O ouro já sai na mesma cor dele. Saía dois ou três carocinhos, que nem pólvora. Eu tirava aquilo, guardava num papelzinho, eu tinha até um punhadinho bom. Do papel, eu colocava num vidro pequeno.
É lá na Água Santa, isso. E eu via esse negócio da água borbulhando. Eu, se chegasse lá e não falasse nada, a água ficava quietinha. Era só você falar qualquer coisa e a água fervia no poço inteirinho, até escutava o barulho. Eu não tinha medo não, até bebia dela. Meu pai que contava que um homem sarou de beber aquela água e lavar a pele, que ele andava de muleta e que a muleta ficou lá encostada numa árvore.
Trabalhei num monte de pedreiras. Na cachoeira, no Mandembe, na pedreira do Nhonhô. Trabalhei 26 anos tirando pedra. O serviço era na marreta, na chapa. Chega naquelas pedra e botava uma chapa, batia a marreta, rancava aquele pedrão grosso e depois folheava. E tirava aquelas folha de pedra. As pedra era pra fazer piso, parede. Tirava muita pedra. Eu já era casado. Eu levantava cedo, daqui até onde eu trabalhava era duas horas a pé, não tinha condução. Levantava, fazia o almoço do dia e levava pra pedreira. Chegava aqui às seis horas da tarde. Agora hoje esse povo trabalha na pedreira e quatro hora da tarde tá tudo chegando aí. Agora o povo ficou folgado, né? Vocês é criado num tempo bom.
Quitanda, fazia em casa, no forno. Fazia biscoito, broa. O forno era feito de cupim. Pegava aqueles pedaços de cupim quadrado e aí deixava só o lugar da fornalha.
Eu tinha engenho tocado a água, do meu pai. Moía muita cana, fazia muita rapadura, fazia pra vender. Vendia tudo. Fazia açúcar de engenho. Não é esse cristal não, é açúcar vermelho. Moía a garapa, punha na tacha, a tacha pegava duzentos litro. Punha aquilo no fogo até dar ponto de doce. Quando tava no ponto de doce, punha no cocho, ia batendo, batendo, quando ia engrossando, aí fazia o açúcar. Aí carregava aquilo, punha numa forma com um buraquinho no meio, ia pingando o melado e aí secava. Chamava melado do pingo, ou melado pingado, ou melado forte. Aí nós comia aquilo, muita gente comprava pra comer o melado do pingo. Isso com mandioca era gostoso.
Eu tomava muita cachacinha. Nós tinha alambique de fazer cachaça, eu aprendi a beber cachaça desde solteiro. Tinha que por a garapa de molho com um bocado d’água e provar de tardezinha. A gente enfiava o dedo e chupava. Se tivesse quase de noite e ainda não tivesse pronto, a gente tinha que pôr mais água pra ficar pro outro dia. Se passasse da hora, não dava. Depois, tinha um tal de alambique, você já ouviu falar? Alambique, eu não sei explicar não, é um trem de ferver, punha lá pra ferver. Depois que fervia, a cachaça saía no canudinho. Mas primeiro costumava sair uma água fraca. Tinha que, de vez em quando, provar. Quando via que já tava forte, era cachaça. Aí a gente tirava aquela água fraca por uma banda e não jogava fora não, guardava. A cachaça, a gente punha pra aparar. Depois, aquela água fraca, quando juntava uns 60, 70 litros, tornava a pôr no alambique e tornava a ferver, tornava a passar ali, e saía uma coisa que eles falavam restilo, mas para mim aquilo era álcool! Aquele restilo a gente não agüentava beber não, aquilo era muito forte. Por isso que eu costumei a beber, porque desde solteiro tinha que provar aquilo! Hoje eu ainda bebo cachaça, mas eu bebo porque eu gosto!
Na quaresma, o povo sai pra rezar pras almas. Lá pelas 10, 11 horas da noite é que saía. Umas oito, dez pessoa. Um deles batia a matraca.
Meu pai diz que viu o nego d’água, mas viu só um pouquinho depois não viu mais. Disse que ele era preto e que apontou lá no rio e tornou a afundar. Deve que ele vivia dentro d’água, porque ele afundou. Teve uma vez que uns amigo meu me chamaram pra ver o corpo seco do Lavarejo, mas eu não tive coragem de ir. E diz que tinha lobisomem por aí, mas eu sei lá, nunca vi lobisomem.
Quando eu morava no sítio, vi que meu pai lá vinha e pensei: vou esconder. Tava escuro. Fiquei escondido no meio da moita pra assombrar ele. Ele viu mas não me conheceu, e me bateu com um porrete.
O Tuca era farmacêutico. O pai dele era o Dudu, que veio de Ingaí pra cá. O primeiro cinema, foi o Zé da Pinta que estreou. De primeiro era com fita, vinha de Paulo Freitas. Eu fui no cinema ainda criança. O Álvaro Bembem fazia o correio aqui a cavalo. Qualquer carta que chegava era ele que entregava.
Uma vez, uma capivara comeu o arroz de uma roça tudo, aí o dono cercou o terreno e fez um foge. Foge é quando faz um buraco da altura de uma porta, e cobria com terra e capim por cima. A Sinhá Ana, mãe do Tonico, não sabia e caiu lá dentro. Aí o moço falou: “Ê, Sinhá Ana Capivara!” Aí pegou o apelido, só que ninguém chamava ele de Tonico Capivara não, era só de longe.
A Maria do Benevides é que dava banho nos defuntos. O Mané Brasilino era meio bobado, não era muito ativo não. O João Coração era meio aleijado, andava de muleta, morava pertinho da Água Santa. Falavam que ele era feiticeiro. Tinha uma pessoa que passou na porta da casa dele e viu que lá tinha uma cobra pendurada morta, pingando sangue dentro de um copo. Perguntaram pra mulher dele o que era aquilo e ele falou: “isso aí é aquelas bobagem do João”. Mas não falou pra que servia.
Carnaval era diferente de hoje. Você vestia uma roupa esquisita, punha uma máscara na cara, saía na rua. Era homem vestido de mulher, mulher vestido de homem.
Quando eu era solteiro gostava até de cantar também. Tocar nunca aprendi não. Comprei um violão, mas não consegui aprender. Mas cantar, eu gostava de cantar. Conhecia um bocado de música. Tem uma que fala assim: Minha embaixada chegou, deixa meu povo passar, meu povo pede licença para na batucada desacatar. Vem vadiar no meu cordão, cai na folia meu amor, venha esquecer sua tristeza, mentindo à natureza, sorrindo à tua dor. Ah, hoje eu esqueci tudo.


8 comentários para “Eu mesmo já achei ouro aqui em Luminárias”

Depoimento do sr.Geraldo Neco é simplesmente emocionante. Uma viagem ao passado. E que memória! Longa vida, centenário. Parabens! Amadeu de Três Corações
Dia 29 de junho de 2011 está chegando, Senhor Geraldo Neco, estará completando seu centenário. Quero deixar meus parabéns, desejar muita saúde e felicidades para o Senhor Geraldo Neco. Um exemplo de vida, exemplo de pai e uma bonita e longa trajetória de vida. Ah, é também muito bom de prosa. Forte abraço de Laura Maria Alves Machado – residente em Três Corações-MG.
Obrigado Papai por tudo o que fez por mim. Que Deus o proteja sempre.
O que dizer desta pessoa tão especial, como diz minha mãe – “Ele é nossa relíquia”. Meu tio tão querido e amado por todos. Completa dia 29/06/11 seus 100 anos, lúcido e sempre bom de conversa.
Que Deus continue ilumindo o Senhor sempre.
Beijos e Te Amo, Tio Geraldo.
Desculpe o erro de digitação: ILUMINANDO
Exemplo de vida e dedicação. Com o seu jeito meigo e fraterno de conviver com todos, vai sempre cativando aqueles que o passam a conhecê-lo.
100(cem) anos de vida, são 100(cem) anos de História, que em cada momento, serviu de exemplo para muitos que estâo ao seu redor.
Que DEUS o continue abençoando por muitos anos, e que seu exemplo de vida, possa servir para muitas gerações vindouras.
Parabéns, Tio Geraldo
Own *–* Meu tio lindo *-* Um exemplo pra mil pessoas, uma raridade, NUNCA vi pessoa mais doce, meiga e por mais que esteja passando por uma fase difícil pensa nos outros (:
Neste ano de 2011 ele fará 100 anos, vê se não é uma gracinha kk *-*
Amo muito ele s2
Parabéns a todos os filhos, netos, bisnetos, parentes e familiares do seu Geraldo! Uma história de vida que serve de exemplo pra todos nós pela alegria de viver. O Museu da Oralidade está de portas abertas para todos vocês.