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A minha história é longa

Paulo de Freitas, ferroviário de Três Corações (MG). Foto: Paulo Morais

Meu nome é Paulo Lourenço de Freitas, nasci no dia 10 de agosto de 1933, estou com 78 anos. A minha história é quase de 40 anos, é uma história longa, eu entrei para a ferrovia lá na minha terra, que é Bom Retiro, perto de de Itanhandu. Eu trabalhava lá na fazenda do meu pai, num sítio, e quando eu ia para a escola, era uma escola de roça, eu passava na estação e gostava de conversar com o chefe da estação. O chefe da estação deixava que eu entrasse na agência e fosse praticando, aprendi o telégrafo com uma rapidez tremenda.

Quando a Rede Mineira de Viação, abriu vaga, o serviço começou a aumentar, pois uma grade maioria de funcionários da rede, inclusive telegrafista, foram para a guerra, uns morreram e outros ficaram, aí uma grande maioria ganhou promoção, foi promovido a tenente, oficial e ficaram no exército.

Aqui eu trabalhava no telégrafo. O chefe do movimento determinava através de telegramas quais os carros deviam ir no trem, então você ia com os guardas e fazia a escolha dos carros que deviam seguir. Eu trabalhava aqui no telégrafo, ao mesmo tempo vendia bilhete, ajudava os guardas na manobra, tudo quanto era serviço eu fazia.

Então aqui era o armazém, naquela porta ali era a sala de espera, os passageiros compravam a passagem aqui e iam para aquela sala esperar o trem, o sofá era um sofá de madeira, um sofá muito bonito, muito confortável, mas de madeira. E ali tinha banheiro,mas ali era mais reservado para senhoras, pentear o cabelo. Naquela porta de lá era escala de guarda-freios, guarda freios é aquele povo que andava em cima do trem. Naquelas duas salas da frente eram um arquivo nosso.

Naquela época nós tínhamos três expressos, o expresso da manhã, o expresso da noite, e o noturno de Belo Horizonte. Um misto para Jureia, um misto para Cruzeiro e um misto para Lavras. O misto é o seguinte, tinha quatro ou cinco carros de passageiro e o resto aproveitava com vagão de carga. Na época de romaria era um espetáculo, quando este povo voltava de Aparecida do Norte, era outra festa, precisava ver o pessoal esperando, uma grande maioria não tinha carro, eles esperavam de charrete, esperavam a cavalo, porque era povo das cidades perto daqui, Carmo da Cachoeira, São Bento, São Thomé.

A sede da 3ª Divisão era aqui em Três Corações, era um baita escritório, onde hoje é esta loja de móveis. Aqui tinha 30 e tantas pessoas trabalhando, mulheres, rapazes, senhoras mais de idade, casadas, jovens, engenheiros. Tinha a parte da frente que era o escriturário, tinha a parte do fundo, que era os telégrafos, mais no fundo para o lado de cá, era material de mecânica, ferraria, eletricidade.

Hoje eu sou advogado, tenho cursos superiores, administração de empresas e ciência contábeis, fiz um monte que cursos, de sociologia, cursos de comunicação, mas eu ponho nos meus documentos, profissão: ferroviário aposentado, porque na realidade, eu falo isto com muito orgulho, se seu sou o que sou foi a ferrovia que me fez.

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