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Dali eu nasci um maquinista

Aquiles José Nogueira, ferroviário de Três Corações. Foto: Andressa Gonçalves

Meu nome é Aquiles José Nogueira, nasci em 1925, mês de agosto, 15 de agosto. Fiz 86 anos agora em agosto. Em nasci em Carmo da Cachoeira. Sou nascido lá, mas fui registrado aqui, porque na Cachoeira na época não tinha registro. Eu tinha 15 anos quando fui registrado. Na época registrou 12 de uma vez, eu e meus irmãos era tudo sem registro, era só anotado na época.

Aqui para Três Corações nós viemos em 46, mas nós morava na roça, trabalhava na roça. Desde 7 anos eu trabalhava para as fazendas, formando café, formando cana. Depois eu entrei no exército e fiquei 3 anos. Em 1946, dia 21 de setembro eu dei baixa no exército. Eu tinha um primo que trabalhava na rede, ele falou que ia arrumar uma vaga para mim na rede. E arrumou e eu entrei lá como praticante, trabalhei na ferraria como ajudante de ferreiro, depois me deu na cabeça de entrar como foquista e ainda passei a maquinista na rede.

Eu trabalhei 10 anos como foguista. Era só abastecer a fornalha. Todo o serviço de tração era perigoso, tanto para o maquinista, tanto para o foguista. O serviço de tração era os dois. O maquinista instruía a gente, e a gente ia seguindo, e dali eu nasci um maquinista.

A rotina de um maquinista é cumprir a escala, fazer um bom serviço, evitar de fazer acidente, este é problema do maquinista. A condução da vaporosa é toda manual, as máquinas a diesel é toda automática, você ligou, pode tirar a mão que ela faz tudo sozinha, agora a vaporoso não, você tem que estar ali firme, para evitar acidente. Eu fico segurando o regulador, então você agradou o o regulador ali, você abre um pouco se você vê que tá perdendo a velocidade, tem o termômetro que regula o regulador, aí você controla ali, e o foguista fica fazendo fogo e a água ferve, é o que dá força para a locomotiva.

Eu te comecei trabalhando com a 245, depois passei para a máquina 312, depois fui para 525, aí a gente trocava, cada semana a gente trabalhava com um tipo de máquina, não trabalhava só numa não. Tnha maquinista que brigava um com outro por causa das máquinas . Aqui tinha 222, 223, 224, 225, 226. A 250 era de um maquinista, a 247 era de outro, 248 era máquina do Benedito Peres, depois passou para o Homero Couto, eu trabalhava com a 330, era uma máquina construída na Bélgica, estas Tanuir.

Quando eu estava trabalhando para os lados de Uberaba, eu vi uma assombração, lá na chegada de Araxá. Eu vi um trem, ele vinha cruzando comigo, mas eles falavam que era a mãe de ouro, era fogo deste tamanha no meio da linha, ela veio correndo para o meu lado, eu parei o trem. Lá na linha de Uberaba, eu falei para o foguista: -eu vou parar, ele falou: – por quê?, – a lá evem um trem lá, olha, ele falou: – não é não, eu falei: é, mas um farolzão deste tamanho. Aí eu parei o trem e o negócio desapareceu, eu saí e fui embora. Isto eu cheguei no depósito lá de Uberaba e contei para o chefe de depósito lá, ele falou que sempre maquinista vê isto lá, mas eu vou contar pra você, ali aonde vocês passam foi um cemitério, é alma perdida que está lá. As vezes quando eu viajava de noite para lá eu ficava vivo, para ver se aparecia mesmo do jeito, que eles falavam que aparecia um homem no meio da linha, mas tudo é caso, né?

Hoje eu trabalho com artesanato, eu faço colher de pau, eu faço pilão, eu faço gamela, faço tecido de cipó. Eu não gosto de ficar parado muito tempo, é ruim ficar parado muito tempo. De vez em quando encontro os colegas de trabalho.Tem dia que dá saudade, porque era gostoso. A gente fica alegre, satisfeito de lembrar dos tempos anterior lá atrás.

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